Tom Sawyer e o rio onde a infância ainda corre

Li Tom Sawyer já em adulto, depois de o conhecer pela televisão. Entre memória e páginas, encontrei uma infância mais livre, mas também mais sombria.

Durante muitos anos, Tom Sawyer pertenceu-me mais pela televisão do que pelas páginas. Conhecia-lhe o chapéu, as fugas, as partidas, a amizade com Huckleberry Finn e aquele mundo aberto junto ao Mississippi, onde cada caminho parecia conduzir a uma aventura. Era uma daquelas histórias que ficavam connosco sem precisarmos de saber exactamente de onde vinham. As imagens da série foram-se misturando com a infância e, durante muito tempo, achei que conhecia Tom Sawyer.

Só muitos anos depois, já adulto, li finalmente o livro de Mark Twain.

Ler um livro depois de termos visto uma adaptação é entrar num lugar que nos parece familiar, mas onde algumas ruas mudaram de nome. Reconhecemos as personagens, os acontecimentos e os cenários, mas há sempre qualquer coisa que nos surpreende. Certos episódios surgem diferentes daquilo que guardávamos, outros ganham mais peso, e há personagens que julgávamos inventadas pela televisão, embora sempre tenham vivido nas páginas.

Foi o que me aconteceu com Becky Thatcher. Durante algum tempo fiquei com a ideia de que a namorada de Tom não existia no livro, talvez por a memória da série ter ocupado demasiado espaço. Mas Becky está lá, desde o primeiro encantamento até ao momento em que se perde com Tom na gruta. E não é apenas uma personagem colocada ao lado do herói. A sua presença ajuda-nos a ver outro Tom, menos seguro do que gosta de aparentar, dividido entre a vaidade, os ciúmes, o medo e um inesperado sentido de responsabilidade.

A história da cerca continua a ser um dos episódios mais conhecidos. Tom é castigado e obrigado a pintá-la, mas consegue convencer os outros rapazes de que aquela tarefa é, afinal, um privilégio. No fim, não só fizeram o trabalho por ele como ainda lhe entregaram pequenos tesouros em troca da oportunidade de pintar. É uma cena divertida, mas também revela muito sobre a personagem. Tom percebe cedo que o desejo não nasce apenas daquilo que queremos, mas também daquilo que pensamos não poder ter.

Ele é traquina, manipulador, preguiçoso e capaz de inventar histórias para escapar aos castigos. Porém, Mark Twain não o reduz a uma caricatura. Tom é também corajoso, leal e capaz de agir quando a aventura deixa de ser brincadeira. É essa passagem entre o jogo e o perigo que torna o livro mais rico do que a memória ligeira que eu tinha da série.

O episódio do cemitério muda o tom da história. Tom e Huck testemunham um crime e carregam consigo um segredo que já não pertence ao mundo das partidas infantis. Pela primeira vez, o medo é verdadeiro. Há um homem inocente acusado, um assassino em liberdade e duas crianças obrigadas a decidir se devem falar ou proteger-se. O mundo dos adultos, que até ali parecia apenas um conjunto de regras feitas para serem desobedecidas, mostra-se violento e injusto.

Também a gruta representa esse momento em que a aventura perde a inocência. Tom e Becky entram num lugar que parece feito para a curiosidade e acabam cercados pela escuridão, pela fome e pela possibilidade real de não regressarem. Tom precisa de manter a calma, procurar uma saída e proteger Becky. Já não pode resolver a situação com uma mentira ou uma partida engenhosa. O rapaz que sonhava ser pirata ou herói tem finalmente de se comportar como um.

Huckleberry Finn é talvez a personagem que melhor representa a liberdade que tanto me fascinava. Huck vive fora das normas, sem escola, sem roupas cuidadas e sem a vigilância constante dos adultos. Para os rapazes da vila, ele parece livre. Porém, essa liberdade tem um preço. Huck não está apenas livre das obrigações. Está também afastado da segurança, do afecto e do lugar que a sociedade reserva às crianças protegidas.

Quando somos mais novos, vemos sobretudo o rio, as jangadas, as cavernas e os tesouros. Em adultos, começamos a reparar na solidão, na violência, na pobreza e na hipocrisia que atravessam a história. Mark Twain escreve sobre rapazes aventureiros, mas também observa o mundo onde eles vivem. Um mundo em que os adultos falam de virtude enquanto mentem, julgam e cometem injustiças.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais As Aventuras de Tom Sawyer continua a ser lido. O livro não trata a infância como uma época perfeita. Mostra-a como um território de descoberta, onde a imaginação pode transformar uma ilha num reino, uma gruta num mundo subterrâneo e um simples caminho numa expedição. Mas mostra também que o medo, a culpa e a coragem começam muito antes da idade adulta.

Li o livro já longe da infância, mas encontrei nele qualquer coisa que ainda reconhecia. Aquela vontade de fugir das regras, de inventar mundos, de acreditar que um tesouro pode estar escondido no lugar mais improvável. Tom Sawyer recorda-nos uma época em que o mundo parecia maior porque ainda não conhecíamos todas as suas fronteiras.

A série deu-me as primeiras imagens. O livro deu-lhes profundidade.

E talvez seja essa a melhor forma de regressar a uma história antiga. Não para confirmar exactamente aquilo de que nos lembrávamos, mas para descobrir tudo o que a memória deixou para trás. Junto ao Mississippi, Tom e Huck continuam a correr. E, por algumas páginas, voltamos a correr com eles.

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