Aparição: o livro que ficou depois da boa nota

Li Aparição no 11.º ano, num trabalho de grupo que me deu uma boa nota. A nota passou. O livro, de algum modo, ficou.

Há livros que lemos na escola e que ficam presos à escola. Vivem entre apontamentos, perguntas do professor e testes marcados no calendário. Quando o ano termina, fechamos o manual, arrumamos os cadernos e deixamo-los para trás como quem abandona uma sala onde já não precisa de voltar.

Outros conseguem escapar.

Aparição, de Vergílio Ferreira, foi um desses livros. Li-o no 11.º ano, por causa de um trabalho de grupo, numa altura em que uma leitura também trazia consigo a preocupação da nota. O trabalho correu bem e deu-me uma boa classificação, mas não foi apenas isso que ficou. Lembro-me, sobretudo, de ter gostado realmente de ler o livro. Não apenas de o ter compreendido o suficiente para apresentar um trabalho, mas de ter entrado nele.

Hoje já não guardo todos os pormenores da história. O tempo levou nomes, cenas e algumas das conclusões a que provavelmente chegámos em grupo. Seria falso tentar reconstruir agora uma memória perfeita. No entanto, há qualquer coisa que permaneceu, como uma luz vista muitos anos depois através de uma janela antiga.

Publicado em 1959, Aparição acompanha Alberto Soares, um professor que recorda o ano em que deu aulas em Évora. À sua volta existem relações, desejos, conflitos e mortes, mas a verdadeira matéria do romance parece estar noutro lugar. Está nas perguntas que surgem por detrás dos acontecimentos. Quem somos quando ficamos sozinhos diante de nós próprios? O que fazemos com a consciência de existirmos? Que sentido pode ter uma vida que sabemos limitada?

No 11.º ano talvez ainda não tivéssemos palavras suficientes para responder a tudo isso. Provavelmente ninguém tem. Mas havia qualquer coisa naquele livro que nos obrigava a parar. A história não se limitava a avançar de acontecimento em acontecimento. Virava-se para dentro, como se cada página colocasse um espelho diante do leitor.

Talvez tenha sido esse o meu primeiro contacto verdadeiro com um romance onde as ideias pesavam tanto como as personagens. Eu podia não saber explicar o existencialismo com grande segurança, mas conseguia sentir as perguntas. E, às vezes, sentir uma pergunta é mais importante do que decorar a resposta certa para um teste.

O trabalho de grupo obrigou-nos a regressar ao livro, a falar sobre ele e a organizar aquilo que tínhamos lido. Não me lembro hoje de como dividimos as tarefas nem de tudo o que apresentámos. Lembro-me da boa nota e daquela satisfação rara de perceber que uma leitura obrigatória não tinha sido apenas uma obrigação.

Há nisso uma pequena vitória da escola que também merece ser lembrada. Nem todos os livros chegam às nossas mãos no momento certo. Alguns aparecem cedo demais, quando ainda não temos vida suficiente para os compreender. Outros encontram uma porta aberta sem sabermos muito bem porquê. Aparição encontrou essa porta.

Se o voltasse a ler hoje, encontraria certamente outro livro. O aluno do 11.º ano lia com um trabalho para entregar e uma nota à espera no fim. O adulto leria com mais anos, mais perdas e outras perguntas. As páginas seriam as mesmas, mas o espelho devolveria outra pessoa.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas da leitura. Um livro não muda, mas nunca regressamos a ele sendo exatamente os mesmos. O que aos dezasseis ou dezassete anos parecia apenas uma ideia pode, décadas depois, ter o peso de uma experiência vivida.

Aparição regressa-me agora assim, como o próprio título promete. Não inteiro, não com todos os detalhes, mas através de uma memória que se recusou a desaparecer. Vejo o 11.º ano, o trabalho de grupo, a boa nota e, acima de tudo, a descoberta de que um livro dado pela escola também podia continuar connosco depois de tocar a campainha.

A nota ficou guardada num passado que já perdeu os papéis. O livro ficou noutro lugar, menos visível, mas muito mais difícil de apagar.

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