Lucky Luke: da biblioteca da escola à estante de casa

Conheci Lucky Luke na biblioteca da escola. Anos depois, o cowboy, os Dalton e Calamity Jane regressaram numa coleção que ainda guardo.

Antes de ter Lucky Luke numa coleção em casa, encontrei-o na biblioteca da escola. Naquele tempo, escolher uma leitura dependia muito daquilo que estava disponível na estante. Não havia um catálogo infinito à nossa frente nem uma recomendação a aparecer num ecrã. Havia livros emprestados, devolvidos e disputados por outros alunos. Quando encontrávamos um álbum de que gostávamos, aproveitávamos enquanto ele estava ali.

Foi assim que o cowboy que disparava mais depressa do que a própria sombra entrou nas minhas leituras. Entre os álbuns que ficaram na memória estão O 20.º de Cavalaria, Calamity Jane, Daisy Town e Mãe Dalton. Alguns pormenores desapareceram com os anos, mas as personagens, o humor e certas cenas sobreviveram muito melhor do que o enredo completo.

Lucky Luke apresentava um Oeste onde tudo parecia familiar, mesmo para quem nunca tinha aberto um livro sobre a história americana. Havia fortes, cavalaria, saloons, diligências, caminhos de ferro, jogadores, ladrões, índios, xerifes e pequenas cidades onde a lei podia depender do primeiro homem com coragem para enfrentar o problema. Tudo isto era reconhecível graças aos filmes de cowboys, mas Morris e Goscinny pegavam nesse mundo e torciam-no até surgir a piada.

Uma das cenas de que ainda me lembro vem de Calamity Jane. Lucky Luke, ainda no tempo em que fumava, oferece-lhe um cigarro. Ela recusa e ele fica com a ideia de que Calamity não fuma. A resposta desfaz logo essa impressão: fumar não, mas mascar tabaco sim. Depois tira o tabaco e mete-o na boca como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

É uma piada curta, mas ficou comigo durante todos estes anos. Talvez porque resume bem a personagem. Calamity Jane podia recusar um cigarro, mas nunca permitir que alguém a confundisse com uma senhora delicada. Naquele Oeste, ela tinha de ser mais dura do que muitos dos homens e fazia questão de o demonstrar.

A cena também pertence a uma época específica de Lucky Luke. Nos álbuns antigos, o cigarro fazia parte da imagem da personagem. Estava quase sempre ao canto da boca, tal como o chapéu branco, o lenço vermelho e o colete preto. Em 1983, Morris trocou-o por uma palhinha. A silhueta permaneceu praticamente igual, mas quem conheceu as histórias anteriores nota imediatamente a diferença.

Há outra imagem que ficou guardada, embora já não consiga dizer em que álbum aparecia. Quem perdia dinheiro, ficava a dever ou se recusava a pagar acabava coberto de alcatrão e penas. Era um castigo absurdo e visualmente inesquecível. A pessoa transformava-se numa espécie de ave mal-humorada, enquanto toda a cidade parecia considerar aquilo um procedimento perfeitamente normal.

Essas pequenas loucuras ajudavam a construir o Oeste de Lucky Luke. Não era preciso explicar demasiado. Uma cidade podia aparecer no meio do deserto, receber um nome e estar cheia de habitantes poucas páginas depois. Um saloon reunia jogadores, bêbedos e um pianista condenado a continuar a tocar durante qualquer tiroteio. O coveiro surgia antes de alguém morrer, já a medir o possível cliente com os olhos.

Depois havia os Dalton. Joe tentava impor-se como o chefe temível, enquanto Averell conseguia destruir qualquer plano com uma pergunta sobre comida. Os quatro tinham a mesma cara e tamanhos diferentes, como se alguém os tivesse desenhado puxando sucessivamente a mesma figura para cima. Podiam fugir da prisão todas as vezes que fosse necessário, porque sabíamos que Lucky Luke acabaria por encontrá-los e levá-los novamente para trás das grades.

Mãe Dalton levou essa família ainda mais longe. Bastava aparecer a mãe para aqueles bandidos deixarem de parecer perigosos e voltarem a ser quatro filhos incapazes de lhe desobedecer. A relação entre ela, Joe e Averell tornava a família ainda mais cómica. Joe queria ser respeitado, Averell queria comer e a mãe sabia exatamente qual deles precisava de um ralhete.

Lucky Luke tinha também Jolly Jumper, provavelmente o cavalo mais sensato de todo o Oeste, e Rantanplan, um cão capaz de interpretar qualquer situação da maneira errada. O herói podia ser rápido, calmo e quase sempre competente, mas o mundo à sua volta garantia que nada se resolveria de forma demasiado simples.

Mais tarde, a coleção que saiu com o jornal Público trouxe Lucky Luke para casa. Aquilo que começou com álbuns emprestados na biblioteca passou a ocupar um lugar próprio nas minhas estantes. Já não era preciso esperar que alguém devolvesse um livro ou escolher apenas entre os poucos títulos disponíveis naquele dia.

Há qualquer coisa de especial nessa passagem. Primeiro, os livros pertenciam à biblioteca e ficavam comigo apenas durante algum tempo. Muitos anos depois, as mesmas personagens regressaram numa coleção que ainda guardo. O cowboy, os Dalton, Calamity Jane e o 20.º de Cavalaria deixaram de depender da disponibilidade de uma estante escolar.

Lucky Luke foi criado por Morris em 1946 e ganhou uma parte importante da sua identidade quando Goscinny começou a escrever as histórias. Mas, quando o conheci, nada disso interessava muito. O que importava era abrir o álbum, entrar naquele Oeste cheio de disparates e chegar ao fim com Lucky Luke a afastar-se sozinho, montado no Jolly Jumper.

A biblioteca da escola foi o princípio. A coleção em casa veio muito depois. Entre uma e outra passaram anos, mas Lucky Luke continuou a cavalgar para o pôr do sol, pobre cowboy solitário e cada vez mais longe de casa.

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