Nisa, a recordação de um desvio

Um pote recorda uma passagem por Nisa. Entre olaria, bordados e ruas com história, há razões para voltar com mais tempo.

Ainda tenho o pote que comprámos em Nisa. É todo trabalhado, com aquele rendilhado que lhe dá uma delicadeza tão própria. Para contar como veio cá parar, tenho de começar um pouco mais longe, na Serra da Estrela.

Vínhamos de lá e, segundo me lembro, a ideia era jantar em Almeirim ou Santarém, antes de seguirmos para a Venda do Pinheiro. Já não tenho a certeza de qual das duas cidades estava nos planos. Lembro-me é de que nos perdemos e acabámos por ir parar a Nisa, no Alentejo. O jantar tinha mudado de região sem que isso fizesse parte do programa.

Em Nisa comemos qualquer coisa num snack-bar e comprámos o pote. São essas as recordações mais claras que guardo daquela passagem. Uma paragem para comer e uma peça de artesanato que acabou por nos acompanhar para casa. Esse objeto ficou como uma pequena porta de entrada para a vila e para uma das suas tradições mais reconhecidas.

A olaria pedrada de Nisa nasceu ligada à necessidade de guardar e transportar água. Ao barro juntaram-se pequenas pedras de quartzo, colocadas uma a uma para formar os desenhos que parecem um rendilhado. É um trabalho minucioso, feito de gestos pacientes, em que cada pedrinha ocupa o seu lugar. Olhando para uma peça tão trabalhada, percebe-se quanto tempo e cuidado podem caber num objeto que depois pousamos em casa.

Essa atenção ao pormenor também aparece nos bordados de Nisa. O barro e o tecido encontram-se no Museu do Bordado e do Barro, que dá a conhecer a história e as técnicas destas duas artes. O núcleo central ocupa o edifício da antiga Cadeia Nova, no centro histórico. É um lugar para perceber melhor como se fazem estas peças e conhecer o saber de quem lhes dá forma. Depois de trazer um pote para casa, faz sentido querer descobrir o trabalho que está por detrás dele.

Entretanto, o rendilhado ganhou outra escala na Ruinha de Santa Maria. A nova calçada, inaugurada em julho de 2021, foi inspirada na olaria pedrada, levando para o chão os motivos que conhecemos das peças de barro. Quando visitei Nisa, essa decoração ainda não existia. Gosto da ideia de uma vila usar o seu próprio artesanato para desenhar uma rua. O que antes cabia nas mãos passou a acompanhar os passos de quem por ali anda.

Há também uma Nisa mais antiga para conhecer. A Porta da Vila e a Porta de Montalvão sobrevivem das antigas muralhas e recordam o passado medieval da localidade. São marcas de um tempo em que entrar numa povoação significava atravessar uma porta, com a vida protegida dentro das suas defesas. Entre esse passado e a calçada recente da Rua de Santa Maria, encontram-se maneiras diferentes de a vila guardar e mostrar a sua história.

E, já que tudo começou com um jantar que devia acontecer noutro sítio, também vale a pena olhar para a mesa de Nisa. O queijo é uma das suas referências, acompanhado por uma gastronomia onde entram os enchidos, as migas, as sopas e o ensopado de borrego. São sabores ligados ao pão, ao azeite e às tradições alentejanas, que dão boas razões para fazer da refeição parte da visita.

Ao voltar agora a esta memória, o pote ajuda-me a olhar para Nisa com mais atenção. A compra ficou ligada a uma troca de caminho, mas a peça traz consigo o trabalho dos artesãos e um pouco da identidade da vila. Continua cá em casa, com o seu rendilhado e com aquela história para contar.

Da primeira passagem ficaram um snack-bar, um pote e um percurso que saiu dos planos. Para uma próxima, ficam as portas antigas, o museu e uma rua onde o barro parece ter ensinado a pedra a desenhar. Desta vez, Nisa pode ser o destino.

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