Rammstein, a banda que cresceu comigo

Começou com Herzeleid em casa de um amigo. Depois vieram Mutter, os CDs, os DVDs e dois concertos marcados pelo fogo.

A primeira vez que ouvi Rammstein foi em casa de um amigo, aqui em Milfontes. O álbum era Herzeleid e bastaram aqueles primeiros sons para perceber que havia ali qualquer coisa que não se parecia com o resto.

Não entendia alemão, mas também não precisava. A voz, as guitarras, o ritmo quase mecânico e aquela forma de construir as músicas chegavam antes das palavras. Havia peso, mas havia também uma identidade tão forte que era impossível confundir a banda com outra qualquer.

Muitas vezes dizemos que a música é uma linguagem universal e, com os Rammstein, percebi isso de uma forma muito concreta. A letra podia estar numa língua que eu não dominava, mas a intenção passava inteira. A voz de Till Lindemann não precisava de tradução para transmitir ameaça, ironia, desejo ou tensão. As palavras chegavam como som, e o som bastava para abrir a porta.

Anos depois, o meu irmão ofereceu-me Mutter. Não foi apenas mais um CD. Foi o disco que transformou uma descoberta numa ligação muito maior.

Mutter tinha tudo aquilo que já me tinha chamado a atenção, mas parecia levar a banda para outra dimensão. As músicas tinham força, ambiente e uma dimensão quase cinematográfica. Havia momentos brutais e outros estranhamente melódicos, como se por baixo de todo aquele metal existisse sempre qualquer coisa ferida a tentar sair.

A partir daí comecei a reunir os álbuns. Um de cada vez, todos em CD original, até ter a discografia completa. Numa altura em que a música começou lentamente a abandonar as prateleiras e a mudar-se para ficheiros e plataformas, os Rammstein continuaram a ocupar espaço físico dentro de casa.

As capas, os discos e os encartes fazem parte da ligação. Não são apenas suportes para músicas que hoje posso encontrar em segundos. Guardam o percurso, o momento em que cada álbum chegou e aquela satisfação de o colocar ao lado dos anteriores.

Também vieram os DVDs. Primeiro Live aus Berlin, que me mostrou que os Rammstein não eram apenas uma banda para ouvir. Em palco, a música tornava-se outra coisa. Havia fogo, encenação, personagens e uma precisão quase industrial. Cada movimento parecia calculado, mas nunca perdia o impacto.

Mais tarde chegou Völkerball, outra prova de que um concerto dos Rammstein não cabe apenas no som. É uma experiência visual e física, uma espécie de teatro metálico onde a música, a luz e o fogo trabalham como partes da mesma máquina.

Ainda assim, nenhum DVD podia preparar-me completamente para os ver ao vivo.

O meu primeiro concerto foi Rammstein, em Vilar de Mouros. Começar assim talvez tenha sido colocar a fasquia demasiado alta logo à entrada.

Fiquei do meio para trás, longe do palco, mas quando as labaredas subiam sentia o calor chegar-me à cara. Não era apenas uma imagem vista à distância. O fogo atravessava o espaço, o som batia no corpo e tudo aquilo que eu já conhecia dos discos e do Live aus Berlin estava finalmente diante de mim.

Há concertos de que guardamos algumas músicas. Desse guardo uma sensação inteira.

Lembro-me da dimensão, da força e daquele espanto de estar a viver pela primeira vez algo que até então só conhecia através de um ecrã. O meu primeiro concerto não foi uma entrada discreta no mundo da música ao vivo. Foi fogo, metal, ruído e Rammstein.

Mais tarde voltei a vê-los, desta vez num concerto em nome próprio na MEO Arena. Num festival, uma banda ocupa um palco que pertence a muitos. Numa data própria, o espaço inteiro pertence-lhe. O cenário, a encenação, a sequência e cada explosão são montados para servir aquele espectáculo.

Foi outra experiência, mais completa e mais próxima da máquina que os Rammstein constroem quando têm o palco todo para si. Já sabia ao que ia, mas isso não diminuiu o impacto. Com esta banda, saber que o fogo vem aí não nos impede de sentir o calor quando ele chega.

Ao longo dos anos, os álbuns foram mudando, mas nunca deixei de reconhecer aquela identidade. Há bandas que tentam repetir eternamente o disco que as tornou conhecidas e outras que mudam tanto que acabam por desaparecer dentro da própria evolução. Os Rammstein conseguiram avançar sem perder o peso, a ironia, a teatralidade e aquela assinatura sonora que se reconhece em poucos segundos.

Deutschland, por exemplo, é uma música grandiosa. Tem o peso da história, uma construção enorme e um vídeo que obriga a olhar para aquilo que está a ser contado. Mas escolher uma única música dos Rammstein é difícil, porque cada fase trouxe alguma coisa que ficou.

No fundo, para mim, é quase tudo bom.

Talvez não seja uma frase muito crítica, mas o Entre Sons nunca foi um tribunal. É um lugar de memória, e a minha memória com os Rammstein atravessa demasiado tempo para caber numa avaliação fria de cada álbum.

Começou numa casa em Milfontes, com Herzeleid. Cresceu quando o meu irmão me ofereceu Mutter. Ganhou espaço numa prateleira, com todos os CDs originais, e movimento nos DVDs Live aus Berlin e Völkerball. Depois saiu de casa e encontrou-me em Vilar de Mouros, no primeiro concerto da minha vida, com o calor das labaredas a chegar-me ao rosto. Anos depois, voltou a encontrar-me na MEO Arena.

Por isso, quando digo que os Rammstein são a minha banda preferida, não estou apenas a escolher um nome entre muitos.

Estou a escolher uma parte da minha história.

Uma história feita de amizade, de um presente do meu irmão, de discos guardados, de imagens vistas vezes sem conta e de dois palcos onde aquilo que eu já sentia ganhou fogo, corpo e som.

Há bandas que ouvimos durante algum tempo. Outras acompanham-nos durante anos.

Os Rammstein cresceram comigo. E continuam a arder.

1