A saga está incluída. O final paga-se à parte.

Rever uma saga antiga devia ser simples. Na Prime Video, por vezes, os primeiros filmes estão incluídos e o final paga-se à parte.

Há noites em que não queremos descobrir nada novo. Não apetece percorrer dezenas de capas, ver trailers ou confiar no algoritmo para escolher por nós. Queremos apenas regressar a uma história conhecida, reencontrar personagens antigas e rever uma saga do princípio ao fim. É uma escolha simples, quase confortável. Pelo menos até aparecer uma portagem a meio do caminho.

Foi o que aconteceu quando fui procurar Regresso ao Futuro na Prime Video. O primeiro filme estava incluído na subscrição. O segundo também. Parecia estar tudo preparado para acompanhar Marty McFly e Doc Brown através das várias confusões temporais sem sair do sofá. Depois chegou o terceiro filme e, para terminar a história, era necessário pagar o aluguer.

Não estamos a falar de uma estreia recente que ainda anda a tentar recuperar o dinheiro gasto na produção. Regresso ao Futuro III chegou aos cinemas em 1990. Já passou inúmeras vezes na televisão, foi lançado em todas as edições físicas imagináveis e faz parte de uma das trilogias mais conhecidas do cinema. Ainda assim, depois de a plataforma nos deixar ver os dois primeiros, o último aparecia como um extra pago.

Com Arma Mortífera encontrei uma situação semelhante. A saga está ali, as capas aparecem lado a lado e parece possível acompanhar as aventuras de Riggs e Murtaugh ao longo dos vários filmes. Porém, nem todos fazem parte da subscrição. Podemos começar a revisão com aquilo que já pagamos mensalmente, mas algures pelo caminho surge novamente o pedido de aluguer.

Eu sei que a Prime Video não funciona apenas como plataforma de streaming. Também é uma loja onde se podem comprar ou alugar filmes, e os direitos de cada título são negociados separadamente. Mesmo dentro da mesma saga, um filme pode estar incluído e o seguinte não. Tudo isso terá uma explicação contratual perfeitamente aborrecida e provavelmente estará indicado num pequeno botão junto de cada capa.

O problema é que ninguém se senta no sofá para acompanhar contratos de distribuição. Sentamo-nos para ver uma história. Quando uma plataforma inclui os dois primeiros filmes de uma trilogia, é natural presumir que também poderemos ver o terceiro. Quando apresenta vários capítulos de uma saga no mesmo espaço, esperamos conseguir chegar ao fim sem encontrar uma caixa de pagamento pelo caminho.

Não é sequer o valor do aluguer que mais incomoda. São apenas alguns euros e, se quisermos muito ver o filme, podemos pagá-los. O incómodo está na sensação de já termos pago a entrada e descobrirmos, a meio da sessão, que o bilhete só dava acesso a parte do percurso. É como receber os primeiros volumes de uma coleção e encontrar o último fechado numa vitrina com uma etiqueta de preço.

A situação torna-se ainda mais estranha por acontecer com sagas antigas. Quem procura estes filmes raramente está a correr atrás da novidade do momento. Está apenas a querer rever algo de que gosta, talvez muitos anos depois da última vez. Há uma memória ligada àquelas personagens, às músicas, às frases que ainda sabemos de cor. Não procuramos uma experiência exclusiva. Procuramos algumas horas na companhia de velhos conhecidos.

Não digo que a escolha seja feita de propósito para nos levar ao aluguer. Provavelmente é apenas o resultado daquela dança interminável de licenças, contratos e catálogos que mudam sem aviso. Contudo, para quem está a ver, o resultado é o mesmo. A plataforma oferece o início, deixa-nos entrar novamente naquele mundo e apresenta a conta quando queremos continuar.

A partir daí, antes de começar qualquer saga, já não basta verificar se o primeiro filme está disponível. É preciso percorrer todos os títulos e confirmar quais estão realmente incluídos. A nostalgia passou a exigir uma pequena inspeção ao catálogo, não vá a máquina do tempo ficar sem combustível antes de chegar ao destino.

Marty McFly consegue regressar ao passado. Riggs e Murtaugh continuam demasiado velhos para estas coisas. Nós só queremos rever os filmes até ao fim. Mas, na Prime Video, há sagas em que a subscrição nos leva quase até lá. O último pedaço da estrada paga-se à parte.

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