A voz que ficou depois de “Broken”

Cheguei aos Seether através de “Broken”. Amy Lee abriu a porta, mas foi a voz ferida de Shaun Morgan que me fez ficar.

Há bandas que chegam através de um álbum, de um concerto ou de uma recomendação. Os Seether chegaram-me através de uma canção. Foi “Broken”, na versão cantada com Amy Lee, que me apresentou a banda. A presença dela chamou-me primeiro, porque era uma voz que eu já conhecia, mas dentro daquela música havia outra voz impossível de ignorar. Rouca, pesada e marcada por uma espécie de dor que não parecia representada. Era a voz de Shaun Morgan.

Não me lembro qual foi a música que ouvi depois de “Broken”. A ordem perdeu-se algures no tempo, como acontece com tantas descobertas musicais. Sei apenas que não fiquei por ali. Vieram “Fake It”, “Remedy”, “Driven Under”, “Gasoline”, “Breakdown”, “Words as Weapons” e “Nobody Praying for Me”. Umas chegaram antes, outras mais tarde, mas todas acabaram por encontrar lugar na minha playlist.

Os Seether nasceram em Pretória, na África do Sul, no final dos anos 90, e foram construindo um caminho feito de guitarras pesadas, melodias sombrias e canções que raramente escondem as feridas. Há força na música deles, mas não é uma força limpa ou triunfante. Parece vir de alguém que caiu, se levantou e ainda traz a poeira agarrada à roupa.

Grande parte dessa identidade está na voz de Shaun Morgan. Ele não precisa de gritar para transmitir peso. Mesmo quando canta de forma mais contida, sentimos que existe qualquer coisa a ferver por baixo. Depois, quando a voz se abre nos refrões, chega áspera e carregada, sem perder a melodia. É uma voz que não procura ser bonita da maneira mais óbvia. Procura ser verdadeira, e talvez seja precisamente isso que a torna tão boa.

As músicas também sabem encontrar um equilíbrio difícil. Têm guitarras fortes e refrões que ficam, mas guardam quase sempre uma sombra. “Fake It” avança com raiva e ironia. “Remedy” entra de rompante. “Breakdown” carrega um cansaço mais fundo. “Words as Weapons” e “Nobody Praying for Me” mostram como a banda consegue ser pesada sem depender apenas do volume. Há sempre uma emoção a conduzir a música, mesmo quando as guitarras parecem querer ocupar todo o espaço.

Entre todas, há uma que ganhou um lugar especial: “Careless Whisper”. Não foi a primeira que ouvi depois de “Broken”, mas foi uma das que ficou. Os Seether pegaram numa melodia conhecida e trouxeram-na para o seu próprio território. Deram-lhe peso, tensão e escuridão. A voz de Shaun Morgan muda-lhe o corpo e faz com que a canção pareça nascer de outro lugar. Não soa apenas a uma versão mais pesada. Soa a uma música que os Seether reclamaram para si.

E depois há “Fine Again”. Estava entre as canções mais ouvidas da banda, mas era a única daquela lista que não aparecia guardada na minha playlist. Provavelmente não por falta de gosto, mas porque nunca tinha tido verdadeira oportunidade de a ouvir. Bastou corrigir esse pequeno desencontro. Ouvi-a, reconheci nela aquelas nuances que tornam o som dos Seether tão familiar e o visto verde apareceu imediatamente. A playlist ficou completa.

Talvez seja essa a parte mais interessante da música. Podemos acompanhar uma banda durante anos e continuar a ter canções à nossa espera. Algumas encontram-nos logo. Outras ficam escondidas até ao dia certo, como se soubessem que ainda não tínhamos chegado ao lugar onde elas estavam.

Amy Lee abriu-me a porta através de “Broken”, mas foram os Seether que me fizeram ficar. Ficaram pelas guitarras, pelas canções e, acima de tudo, por aquela voz de Shaun Morgan que parece trazer sempre uma tempestade lá dentro. Hoje já não me lembro qual foi a segunda música que ouvi. Também já não importa. Lembro-me das que ficaram, e isso conta muito melhor a história.

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