O Vencedor Está Só: a solidão no fim da passadeira vermelha

Em Cannes, todos querem ser vistos. Paulo Coelho olha para o brilho e pergunta o que sobra quando se chega sozinho ao topo.

Há livros que se leem pela história e outros que nos devolvem um espelho. O Vencedor Está Só, de Paulo Coelho, consegue fazer as duas coisas, embora o reflexo que nos mostre esteja longe de ser agradável.

Quando pensamos no Festival de Cannes, aparecem-nos imediatamente as passadeiras vermelhas, os vestidos escolhidos ao pormenor, as estrelas de cinema, os fotógrafos e as festas onde toda a gente parece conhecer toda a gente. É um mundo construído para ser visto. Paulo Coelho entra nesse cenário pela porta lateral e aponta a luz para aquilo que normalmente fica escondido.

A história decorre ao longo de 24 horas. Um único dia em que Cannes se enche de produtores, atores, modelos, estilistas, jornalistas, empresários e candidatos a qualquer coisa que os retire do anonimato. Há quem já tenha chegado ao topo, quem esteja a tentar subir e quem viva com medo de perder o lugar conquistado.

Todos parecem procurar alguma coisa. Um papel num filme, um contrato, uma fotografia na revista certa, um convite para a festa onde só entram os escolhidos ou apenas a possibilidade de serem vistos ao lado das pessoas certas. Naquele mundo, estar presente não chega. É preciso que os outros saibam que estivemos presentes.

No centro da narrativa está Igor, um empresário russo rico e influente que viaja até Cannes para recuperar Ewa, a mulher que o deixou e que vive agora com Hamid, uma das figuras mais poderosas da moda.

Igor está convencido de que Ewa continua a amá-lo. Na sua cabeça, ela afastou-se porque foi enganada pelo brilho de outro mundo e precisa apenas de compreender que cometeu um erro. Não aceita que ela possa ter escolhido partir. Muito menos aceita que tenha construído uma vida longe dele.

Ao princípio, poderíamos confundir aquilo com o desespero de um homem magoado. Rapidamente percebemos que não estamos perante uma história de amor. Estamos perante uma história de posse.

Igor não quer reconquistar Ewa. Quer recuperá-la como quem recupera algo que lhe pertence.

Para chamar a sua atenção, começa a “destruir universos”. A expressão poderia parecer apenas uma metáfora romântica, daquelas que ficam bem numa mensagem enviada a meio da noite. Para Igor, porém, cada pessoa é um universo e destruir um universo significa matar alguém.

As vítimas tornam-se recados destinados a Ewa.

O mais inquietante não é apenas a violência. É a tranquilidade com que Igor a justifica. Ele não se vê como um criminoso, mas como um homem a cumprir uma missão. Considera-se inteligente, disciplinado e capaz de fazer aquilo que os outros não têm coragem de fazer. Na sua lógica, as mortes são um sacrifício necessário para provar a dimensão do seu amor.

É aí que o livro se torna mais perturbador. Igor não age por impulso nem perde o controlo. Pelo contrário, constrói uma explicação moral para cada gesto e convence-se de que continua a ser uma boa pessoa. O amor serve-lhe de desculpa, mas aquilo que o move é a necessidade de controlar.

À volta dele cruzam-se outras personagens, cada uma a perseguir a sua própria versão do sucesso.

Gabriela é uma atriz americana à espera da oportunidade que poderá mudar-lhe a vida. Como tantos outros candidatos espalhados por Cannes, acredita que basta um encontro, uma audição ou a atenção da pessoa certa para todos os anos de espera finalmente fazerem sentido.

Jasmine encontra-se à entrada do mundo da moda. Tem diante de si a possibilidade de uma carreira, mas também um sistema pronto a transformar-lhe o corpo, a história e a identidade numa imagem vendável.

Hamid começou com os seus próprios sonhos e chegou ao topo da moda. Tem dinheiro, reconhecimento e influência, mas tornou-se parte da mesma máquina que um dia julgou poder dominar. Savoy, o inspetor encarregado da investigação, olha para os crimes como a oportunidade de resolver o caso que poderá dar-lhe a projeção que sempre desejou.

Até perante a morte alguém pensa na carreira.

As personagens não estão ali apenas para preencher a história de Igor. Cada uma representa uma forma diferente de se deixar engolir por um sonho. Há quem procure a fama, quem queira conservar o poder, quem precise de provar o próprio valor e quem já não saiba distinguir aquilo que realmente deseja daquilo que aprendeu a desejar.

Cannes funciona quase como uma cidade montada para uma representação. As roupas, os carros, os hotéis, as festas e os convites indicam a posição de cada pessoa dentro daquela hierarquia. Quem está de fora procura uma maneira de entrar. Quem conseguiu entrar vive com medo de ser empurrado novamente para fora.

O verdadeiro poder nem sempre está na pessoa que aparece na capa da revista. Muitas vezes pertence a quem decide quem será fotografado, quem entrará na festa, quem receberá o papel ou qual rosto será esquecido antes de o festival terminar. As celebridades são a parte visível de um sistema comandado por gente que quase nunca precisa de aparecer.

É neste ambiente que Igor circula sem levantar grandes suspeitas. Cannes está demasiado ocupada a olhar para si própria. Enquanto houver uma estreia, um vestido ou uma festa, ninguém quer interromper o espetáculo para reparar verdadeiramente nas pessoas que vão desaparecendo.

Embora tenha crimes, investigação e uma tensão que atravessa todo o dia, O Vencedor Está Só não vive apenas como um thriller. As mortes fazem avançar a narrativa, mas o centro do livro está naquilo que Paulo Coelho quer dizer sobre o nosso fascínio pela fama, pelo dinheiro e pela influência.

O autor não é propriamente subtil. Por vezes explica demoradamente aquilo que a própria história já nos permitia compreender. Repete ideias, carrega nos símbolos e transforma algumas personagens em retratos quase extremos do mundo que pretende criticar. Mas também é essa frontalidade que torna a leitura tão rápida. O livro sabe para onde quer ir e não se distrai pelo caminho.

Li-o com a mesma facilidade com que se acompanha uma sucessão de acontecimentos num ecrã. Os capítulos avançam entre horas, personagens e lugares, criando a sensação de que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. Enquanto uns se preparam para aparecer diante das câmaras, outros desaparecem sem que ninguém dê por isso.

Publicado em 2008, o livro parece hoje ainda mais próximo do mundo em que vivemos. A necessidade de ser visto já não pertence apenas ao cinema, à moda ou às passadeiras vermelhas. Espalhou-se pelos telemóveis, pelas redes sociais e pela vida quotidiana. A fama deixou de ser apenas o sonho de alguns e tornou-se uma pequena tentação disponível a quase todos.

Talvez seja essa a parte mais desconfortável do espelho.

É fácil olhar para aquelas personagens e considerar aquele mundo superficial, distante e exagerado. Mais difícil é admitir que também aprendemos a medir o valor das coisas pela atenção que recebem. Um trabalho parece mais importante se for partilhado. Uma viagem parece mais real depois de publicada. Uma pessoa parece mais relevante quando muita gente olha para ela.

O título pode ser lido como uma promessa de triunfo. O vencedor chega ao topo, supera os outros e fica sozinho acima deles. Depois de percorrermos aquele dia em Cannes, porém, a frase começa a soar menos como uma vitória e mais como uma condenação.

Igor tem dinheiro, poder e capacidade para executar os seus planos, mas está sozinho dentro de uma realidade construída por ele próprio. Hamid alcançou o lugar que procurava, mas vive preso à posição que conquistou. Gabriela e Jasmine aproximam-se dos seus sonhos sem saberem ainda quanto lhes será pedido em troca.

Todos querem vencer. Quase ninguém parece perguntar o que sobrará quando conseguir.

O Vencedor Está Só entretém, inquieta e deixa algumas perguntas depois de a passadeira vermelha ser enrolada. Até onde estamos dispostos a ir para alcançar aquilo a que chamamos sucesso? Quantas partes de nós aceitamos perder pelo caminho? E, se no final chegarmos sozinhos, será que vencemos realmente?

Talvez o pior não seja falhar.

Talvez seja chegar ao lugar onde sempre quisemos estar e descobrir que já não existe ninguém connosco para quem valha a pena olhar.

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