Do primeiro fotograma às histórias que ficam

Uma viagem do cinema mudo aos filmes que ficaram connosco, entre bandas sonoras, salas escuras e memórias pessoais.

Hoje, na M80, passam bandas sonoras de filmes. Basta reconhecer os primeiros acordes para a memória fazer o resto: voltamos a uma cena, a uma sala escura, a uma tarde em que o filme parecia maior do que o ecrã. Talvez seja essa a magia do cinema. Uma imagem e uma música conseguem abrir uma porta que julgávamos fechada.

Assinala-se hoje, 5 de novembro, o Dia Mundial do Cinema. É uma boa ocasião para recuar até aos primeiros anos da sétima arte, quando imagens em movimento começaram a espantar quem as via. Os primeiros filmes eram breves e mostravam gestos simples, pessoas a sair de uma fábrica, um comboio a chegar, a vida a acontecer diante da câmara. A máquina ainda mal aprendera a contar histórias, mas já tinha descoberto como guardar instantes e fazê-los repetir-se.

O cinema foi crescendo. Vieram os filmes mais longos, os grandes actores, as comédias e os dramas, as aventuras que nos levavam para lugares desconhecidos. Durante muito tempo, as imagens falaram sem palavras. A música acompanhava-as e os rostos faziam o trabalho todo. A cor começou por surgir em experiências e processos de colorização. Mais tarde, o som sincronizado levou as vozes para dentro da história. Cada mudança abriu novas possibilidades, mas a vontade de contar e de sentir permaneceu.

Também nós fomos mudando com os filmes. Houve tardes diante da televisão, sessões no cinema, cassetes rebobinadas e discos que guardavam mundos inteiros. Hoje, carregamos catálogos de filmes no comando ou no telemóvel. Mudou a forma de chegar às histórias. A sala escura, porém, continua a ter qualquer coisa de especial: durante umas horas, desconhecidos respiram ao mesmo ritmo, riem, assustam-se ou ficam em silêncio, todos a olhar para o mesmo lugar.

Quando penso nos filmes da minha vida, a lista começa a crescer depressa. Star Wars abriu galáxias; Matrix fez-nos duvidar da realidade; Armageddon levou a aventura até ao espaço. Regresso ao Futuro transformou uma viagem no tempo numa brincadeira cheia de coração. Os Condenados de Shawshank ficou pela força da esperança. E depois há Top Gun e Days of Thunder, filmes que posso rever vezes sem conta, mesmo sabendo cada curva e cada palavra.

Não cabem todos num só texto. Nem precisam. Há filmes que ficam guardados numa música, numa frase, num rosto ou no lugar onde os vimos pela primeira vez. Alguns acompanham-nos desde miúdos. Outros chegam mais tarde e encontram-nos diferentes. De vez em quando, voltamos a eles e percebemos que também nós mudámos, embora certas cenas continuem exactamente onde as deixámos.

Do primeiro fotograma à sala cheia, do silêncio às bandas sonoras que ainda passam na rádio, o cinema atravessou gerações sem perder a capacidade de nos surpreender. Pode levar-nos para uma galáxia distante, pôr-nos ao volante de um carro de corrida ou deixar-nos sentados diante de uma história simples sobre amizade e esperança. No fim, fica qualquer coisa connosco.

Hoje é Dia Mundial do Cinema. Escolham um filme da vossa vida, preparem as pipocas e deixem a história começar outra vez.

1