A hora que nos dão, a tarde que nos tiram

Os relógios recuam e a tarde escurece mais cedo. Entre memórias das aulas e promessas adiadas, penso na luz que queria guardar para depois do trabalho.

Na madrugada deste domingo, os relógios voltam a recuar uma hora. Quando forem duas da manhã, passa a ser uma. É aquele momento do ano em que nos dizem que ganhamos uma hora, como se alguém tivesse encontrado tempo esquecido numa gaveta e decidido devolvê-lo. Sabe bem pensar numa manhã sem tanta pressa, embora o corpo nem sempre ligue ao que ficou combinado no relógio.
A mim, a mudança não me faz muita impressão. Adapto-me e sigo com os dias. Mas, se puder escolher, prefiro ter mais um pouco de sol à tarde. Sair do trabalho e ainda encontrar luz dá outra disposição. Parece que sobra espaço para qualquer coisa nossa, mesmo que seja apenas uma volta pequena, uma compra sem pressa ou o caminho até casa com o dia ainda aberto.
Quando saímos às seis e já é noite, a sensação é diferente. As horas disponíveis continuam a ser as mesmas, mas custa um pouco acreditar nisso. A escuridão parece empurrar-nos para dentro de casa e encurtar aquilo que resta depois das obrigações. O relógio diz que ainda temos tempo. A janela sugere que está na altura de fechar o dia.
Por isso, à primeira vista, agrada-me a ideia de ficar com a hora de verão o ano inteiro. Só que depois me lembro de uma experiência que já vivemos e a escolha deixa de parecer tão simples.
Entre 1992 e 1996, Portugal continental adotou o horário da Europa Central, numa tentativa de aproximar os nossos horários dos parceiros europeus. No outono de 1992, os relógios não recuaram. Durante o inverno, ficámos com uma hora equivalente à nossa atual hora de verão. Nos anos seguintes, continuaram a existir mudanças sazonais, mas sempre com uma hora de avanço em relação ao regime que usamos hoje.
Lembro-me de ir para as aulas às oito e meia da manhã e estar uma escuridão que não combinava nada com a ideia de começar o dia. Não gostava. O relógio mandava-nos estar despertos, atentos e prontos para aprender, enquanto lá fora parecia que a manhã ainda não tinha chegado. Essa memória ficou-me mais nítida do que qualquer explicação sobre fusos horários.
É uma recordação que me trava quando penso apenas nas vantagens de prolongar a luz da tarde. Aquela claridade teria de vir de algum lado. Se o Sol se põe uma hora mais tarde no relógio, também nasce uma hora mais tarde. Não acrescentamos luz ao dia. Mudamos os números com que a acompanhamos e a maneira como ela se cruza com a escola, o trabalho e o resto da vida.
A hora de inverno é a mais próxima da hora solar em Portugal continental. Isso não significa que o Sol tenha de estar no ponto mais alto quando o relógio marca exatamente meio-dia, porque a nossa posição no mapa também conta. Significa que há uma maior aproximação entre o que os ponteiros indicam e o percurso do Sol. Depois vêm os nossos horários, que nem sempre foram organizados a pensar nessa relação.
Se mantivéssemos a hora de inverno durante todo o ano e quiséssemos aproveitar a luz como fazemos no verão, faria sentido começar e terminar algumas atividades mais cedo. Mas uma mudança dessas teria de chegar a vários lados ao mesmo tempo. Pouco adianta sair do trabalho uma hora antes se a escola dos filhos, os transportes e os serviços continuarem a funcionar no horário habitual.
Talvez seja por isso que esta conversa nunca se resolve apenas com a escolha de uma hora. Cada pessoa pensa a partir do dia que tem. Quem começa a trabalhar muito cedo conhece bem o peso das manhãs escuras. Quem só fica livre ao fim da tarde sabe a falta que faz encontrar ainda um pouco de sol. E há quem atravesse o inverno a sair de casa de noite e a regressar já sem luz, seja qual for a preferência.
Depois há outra memória, mais recente e menos pessoal: a de nos terem dito que estas mudanças iam acabar. A proposta europeia apareceu em 2018 e, no ano seguinte, o Parlamento Europeu aprovou uma posição favorável ao fim da troca de hora, apontando para 2021. A notícia ficou. O acordo necessário entre os governos não chegou, e os ponteiros continuaram a cumprir o mesmo ritual.
Percebo que uma decisão destas exija coordenação. Os países têm posições geográficas e rotinas diferentes, além de ligações que não se interrompem nas fronteiras. Ainda assim, tantos anos depois, fica aquela sensação familiar de um assunto anunciado com convicção e deixado à espera de uma conclusão. Duas vezes por ano voltamos a perguntar se é para adiantar ou atrasar, e duas vezes por ano alguém recorda que isto era para ter acabado.
Por mim, continuo a preferir um pouco mais de luz ao fim da tarde. Mas também continuo a lembrar-me das oito e meia da manhã a caminho das aulas, com a noite ainda agarrada às ruas. Entre uma memória e a outra, custa-me defender uma solução como se não tivesse qualquer desvantagem.
Neste domingo, lá acertaremos os relógios. Depois, cada um tentará acertar o sono, a disposição e os pequenos hábitos. Eu hei de olhar para a rua ao sair do trabalho e sentir falta daquela claridade que, até há pouco, ainda me acompanhava. Se algum dia deixarmos de mudar a hora, gostava que a conversa chegasse também à forma como distribuímos o dia. Afinal, o que eu queria era uma coisa bastante simples: acabar as obrigações e ainda encontrar um bocadinho de sol à minha espera.

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