Há álbuns que chegam devagar. Ouvimos uma música, guardamos outra e deixamos as restantes para uma ocasião que pode nunca aparecer. Outros entram de repente, sem pedirem licença, e obrigam-nos a continuar até ao fim. Foi isso que aconteceu com Sanctuary, dos Evanescence. Não começou como uma decisão de colocar o álbum inteiro na playlist. Começou apenas com a sensação de que havia ali qualquer coisa que merecia ficar.
A primeira reação foi simples e espontânea: o novo álbum estava brutal. Ainda a audição ia no início e já havia três músicas guardadas. Depois passaram a quatro, cinco e sete. Pouco mais tarde entrou outra e a conta chegou às oito, quando ainda faltavam ouvir quatro. A partir daí, os números começaram a contar uma história. Não porque estivesse a fazer uma classificação ou a tentar bater algum recorde, mas porque cada nova faixa confirmava que o álbum não estava a perder força.
A minha playlist não serve para guardar tudo aquilo de que gosto durante alguns minutos. Uma música só entra quando sinto que vou querer voltar a ouvi-la. É um lugar de regresso, não um depósito de entusiasmo passageiro. Por isso, ver o número crescer daquela maneira começou a tornar-se estranho. Cada canção encontrava o seu espaço e nenhuma parecia estar ali apenas para preencher o álbum.
Quando faltavam apenas duas músicas, apareceu inevitavelmente a possibilidade do pleno. Ainda o disse quase a brincar, porque bastava uma delas não me agarrar para o álbum ficar com uma marca muito boa, mas incompleta. Não teria sido problema nenhum. Na verdade, já era raro chegar tão longe. Só que as duas últimas também ficaram e, no fim, a frase saiu naturalmente: o pleno aconteceu.
Foi uma música depois da outra. Sem saltar, sem escolher antecipadamente os temas mais conhecidos e sem deixar as restantes para depois. Sanctuary entrou inteiro na playlist porque me foi convencendo enquanto avançava. Houve qualquer coisa naquela sonoridade, naquele peso atravessado por um ambiente meio gótico, que me manteve dentro do álbum. Era familiar sem soar a uma simples repetição do passado.
Conheço os Evanescence desde Fallen. Foi aí que a banda entrou na minha vida e é desse álbum que continuo a ter quatro músicas na playlist. De The Open Door tenho duas. Do álbum Evanescence não tinha inicialmente nenhuma, embora isso nunca tenha significado que não gostasse dele. A playlist foi sendo construída pela memória, com as canções que me lembrava e às quais queria regressar, e não através de uma revisão organizada de cada disco.
Sanctuary mudou isso durante algumas horas. Depois de chegar ao fim, o Spotify levou-me de volta ao álbum Evanescence e uma música encontrou também o seu lugar. O disco novo não se limitou, portanto, a acrescentar canções. Fez-me voltar atrás, rever a discografia e perceber que havia coisas deixadas para trás não por falta de valor, mas apenas porque o tempo e a memória fazem escolhas incompletas.
Há ainda um objeto que guarda essa ligação antiga à banda: o CD de Anywhere but Home. Continua cá em casa e nunca foi emprestado. Talvez porque certos discos deixem de ser apenas música e passem a carregar o tempo em que chegaram até nós. Podemos ouvir as mesmas canções nas plataformas, mas o CD continua a ter outro peso. Está ligado à descoberta da banda, ao hábito de ouvir um álbum com princípio e fim e à vontade de o conservar inteiro.
Antes de terminar Sanctuary, ainda o enviei a um amigo que também gosta deste género. Não sabia se já teria tropeçado nele antes de mim, mas parecia-me provável que percebesse o entusiasmo. Há discos que queremos partilhar antes de termos encontrado as palavras certas para falar deles. Primeiro enviamos a música. A explicação vem depois.
Talvez seja isso que tornou esta audição tão especial. Num tempo em que tantas vezes chegamos aos álbuns através de uma música isolada e passamos rapidamente para a seguinte, Sanctuary conseguiu manter-me ali. Não precisei de procurar o tema mais forte nem de decidir qual seria o single que sobreviveria. O álbum foi avançando e a playlist foi crescendo com ele.
O pleno não aconteceu porque todas as músicas fossem iguais ou porque eu tivesse decidido gostar de tudo antes de ouvir. Aconteceu porque, uma após outra, nenhuma pediu para ser deixada para trás. Quando a última terminou, já não havia nada a escolher. Sanctuary tinha entrado inteiro e, ao mesmo tempo, tinha aberto novamente a porta para os Evanescence que me acompanham desde Fallen.
Evanescence: a noite em que o álbum inteiro entrou na playlist
Começou com três músicas guardadas. Acabou com o álbum inteiro na playlist e uma velha ligação aos Evanescence novamente desperta.
