Há livros que entram em casa pela capa. Aprendiz de Assassino foi um deles. Vi-o, achei a imagem interessante e a sinopse fez o resto. Prometia uma história num mundo medieval, com intrigas, segredos e um rapaz destinado a aprender uma profissão que, só pelo nome, parecia trazer perigo suficiente para manter as páginas em movimento.
Ainda hoje percebo porque o escolhi. A história de Fitz tinha tudo para me prender. Filho bastardo de um príncipe, entregue ainda criança à família do pai e marginalizado dentro de uma corte onde todos pareciam saber qual era o seu lugar, menos ele. Havia também o Talento, a ligação aos animais e o treino secreto para se tornar assassino ao serviço do rei. Era um mundo de castelos, jogos de poder e lealdades escondidas, precisamente o tipo de ambiente que a capa e a sinopse me tinham prometido.
O problema não estava na ideia. A história era interessante. O problema era chegar até ela.
Na altura, achei o livro muito massudo. A narrativa parecia demorar demasiado tempo a desenvolver-se e, sempre que eu esperava que alguma coisa avançasse verdadeiramente, surgia mais preparação, mais construção de personagens e mais um pedaço daquele mundo a ser colocado no lugar. Consigo perceber que, para quem entra numa saga longa e se deixa envolver por todos os seus pormenores, essa lentidão possa ser uma qualidade. Para mim, naquele momento, tornou-se um peso.
Não era um livro vazio, nem uma história sem possibilidades. Pelo contrário. Talvez tenha sido isso que tornou a leitura mais frustrante. Eu conseguia ver a promessa, mas sentia que ela estava sempre um pouco mais adiante. Fitz aprendia, crescia e tentava perceber o espaço que lhe tinham reservado, enquanto eu esperava que o livro desse finalmente o passo que me faria esquecer o tamanho do caminho.
Há leituras que chegam no momento certo e outras que nos pedem uma paciência que não temos para lhes dar. Talvez hoje lesse Aprendiz de Assassino de outra maneira. Talvez reparasse mais na solidão de Fitz, na forma como ele cresce rodeado de pessoas que o querem usar, proteger ou manter à distância. Talvez aceitasse melhor que o livro estava a construir uma vida inteira e não apenas uma aventura. Mas a leitura que fiz pertence àquele tempo, e naquele tempo o livro pareceu-me demasiado pesado e pouco desenvolvido.
Terminei-o, mas não senti vontade de procurar o volume seguinte. Numa saga, esse impulso conta muito. O primeiro livro não precisa de responder a tudo, mas tem de deixar uma urgência, qualquer coisa que nos faça querer continuar logo depois da última página. Comigo isso não aconteceu. A curiosidade existia, mas não foi mais forte do que o cansaço deixado pela leitura.
Mesmo assim, o livro ainda está na minha estante. Não o doei nem o afastei, talvez porque também os livros de que não gostámos por completo fazem parte da nossa história. A capa que me chamou continua lá. A promessa daquela aventura medieval também. Só não chegou a transformar-se numa viagem suficientemente forte para me levar aos outros volumes.
Nem todos os livros que guardamos são favoritos. Alguns ficam porque representam uma escolha, uma expectativa ou um caminho que quase seguimos. Aprendiz de Assassino é isso para mim. Uma história que achei interessante, um mundo onde poderia ter permanecido durante muitos livros, mas uma leitura tão massuda que me deixou à porta da saga. Fitz continuou o seu percurso. Eu fiquei pelo primeiro volume.
