O Zahir: o que procuramos quando alguém parte

Li O Zahir há muitos anos. Ficaram o prazer da leitura, uma paisagem quase deserta e a procura de alguém que acaba por nos levar para dentro.

Li O Zahir há muitos anos e já não consigo percorrer a história de uma ponta à outra de memória. Ficou-me a imagem de um homem numa paisagem quase deserta e aquele lado introspectivo que reconheço na escrita de Paulo Coelho. Lembro-me de ter gostado de o ler. Agora que tento regressar ao livro, é por essas poucas coisas que começo: uma figura, uma paisagem e a impressão de que o caminho também se fazia por dentro.

Ao recuperar o fio da história, encontro um escritor de sucesso a viver em Paris, cuja mulher, Esther, correspondente de guerra, desaparece. A ausência perturba a vida que ele julgava conhecer e torna-se uma obsessão. A procura leva-o até ao Cazaquistão, mas obriga-o também a rever o casamento, as escolhas que fez e aquilo a que tinha deixado de prestar atenção. Encontrar Esther passa a envolver perguntas para as quais o dinheiro e o reconhecimento pouco lhe servem.

É nesse movimento que reconheço o Paulo Coelho de que me lembro. As personagens deslocam-se, conhecem pessoas, atravessam lugares, e o que acontece à sua volta vai abrindo espaço para a reflexão. O mundo exterior dá-lhes matéria para olharem para si. Em O Zahir, a falta de alguém põe em causa a segurança de quem ficou. Uma vida que parecia estar arrumada pode revelar muitas coisas por resolver assim que uma das suas presenças habituais desaparece.

Ao pensar nisso hoje, detenho-me na facilidade com que confundimos conhecer alguém com estarmos habituados à sua presença. Sabemos os horários, os gestos, a maneira de pousar as chaves ou de pedir um café. Entretanto, podemos deixar de perguntar o que essa pessoa deseja, o que a inquieta ou o que já mudou nela. A convivência dá-nos uma sensação de certeza que merece ser interrogada de vez em quando. Continuar a escutar quem está ao nosso lado também exige disponibilidade para ouvir alguma coisa inesperada.

O título dá forma à obsessão do narrador: Esther ocupa-lhe o pensamento e tudo parece reconduzi-lo a ela. A partir daí, o livro permite pensar na distância entre amar uma pessoa e querer que ela corresponda ao lugar que lhe reservámos. Procuramos quem partiu, procuramos uma explicação e, por vezes, procuramos recuperar a tranquilidade que tínhamos antes. Essas vontades podem misturar-se de tal maneira que se torna difícil perceber onde acaba o amor e começa o medo da perda.

Talvez a imagem quase deserta que guardei tenha alguma coisa a ver com esse espaço de confronto. Hoje, ao evocá-la, penso no que acontece quando as distrações diminuem e ficamos com tempo para ouvir as próprias perguntas. É uma associação que faço agora, tantos anos depois da leitura. A história já me chega incompleta, mas reconheço nela aquela inclinação para olhar para dentro que me acompanhou enquanto lia Paulo Coelho.

Gostei de O Zahir e é com essa recordação que o trago ao Caderno. Uma releitura talvez me fizesse reparar noutras coisas, concordar menos com algumas ideias ou demorar mais numa passagem que antes me escapou. Por agora, fica esta pergunta que o livro me devolve: quanto conhecemos de quem caminha connosco? Talvez valha a pena fazê-la enquanto ainda podemos sentar-nos à mesma mesa e ouvir a resposta.

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