O livro que comprei por engano

Um comentário trocou dois Fernãos e trouxe-me de volta um livro comprado por engano, nunca lido e mais tarde doado.

Há dias, num texto que publiquei sobre Fernão Lopes, alguém deixou um comentário: “Fernão Mendes Minto?” Percebi a brincadeira com o nome de Fernão Mendes Pinto, mas, antes de responder, quis confirmar aquilo de que já estava quase certo. Eram mesmo duas pessoas diferentes. Fernão Lopes foi o cronista. Fernão Mendes Pinto foi o viajante que escreveu Peregrinação.

A troca dos nomes trouxe-me outra coisa à memória. No tempo da escola, pediram-nos que lêssemos Aparição, de Vergílio Ferreira. Fui comprar o livro e, por engano, trouxe Peregrinação. Tenho a memória de serem dois pequenos volumes de bolso das Publicações Europa-América, daqueles livros que cabiam facilmente numa mochila e se alinhavam nas estantes sem ocupar muito espaço.

Só percebi o engano depois. Tive de voltar e comprar Aparição, o livro certo, que acabei por ler e de que gostei muito. Peregrinação, porém, ficou por ali. Entrou em minha casa por acidente, ocupou durante anos um lugar entre outros livros e nunca chegou a ser lido.

Entretanto, fui escolhendo melhor aquilo que queria guardar. Doei livros que já não me diziam nada, alguns porque os tinha lido e sabia que não voltaria a eles, outros porque nunca chegara verdadeiramente a encontrá-los. Peregrinação foi um desses livros. Confirmei agora que já não o tenho. Deve ter seguido dentro de uma caixa, rumo a outra casa, talvez para encontrar finalmente o leitor que comigo nunca encontrou.

Não posso, por isso, falar desta obra como leitor. Posso apenas olhar para aquilo que ficou à porta. Publicada em 1614, depois da morte de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação reúne o relato das viagens e desventuras que o autor viveu, ou disse ter vivido, durante muitos anos no Oriente. Há travessias, naufrágios, guerras, prisões, fugas, encontros com diferentes povos e descrições de terras que, para muitos leitores daquele tempo, existiam quase do outro lado do imaginável.

Mas o livro não parece limitar-se a contar aventuras ou a celebrar os portugueses que partiram pelo mundo. Também observa a cobiça, a violência e as contradições daqueles homens. Fernão Mendes Pinto surge muitas vezes menos como herói do que como alguém arrastado pelos acontecimentos, sobrevivendo entre perigos, mudanças de fortuna e histórias tão extraordinárias que o seu próprio nome ficou preso ao velho trocadilho: “Fernão, mentes? Minto.”

Talvez tenha sido isso que perdi ao não o ler. Não apenas uma narrativa de viagens, mas um olhar menos arrumado sobre a expansão portuguesa, contado por alguém que parece ter passado tantas vezes de aventureiro a prisioneiro, de comerciante a náufrago, de testemunha a personagem da sua própria história.

Não sei se algum dia voltarei a comprar Peregrinação. Há demasiados livros ainda à espera e outros que continuam a chamar por mim das estantes. Mas foi curioso vê-lo regressar agora, tantos anos depois, escondido dentro de um comentário sobre outro Fernão.

Há livros que lemos e esquecemos. Outros nunca chegamos a abrir, mas deixam na mesma uma pequena história atrás de si. Peregrinação foi o livro errado que me obrigou a voltar para comprar o certo. E talvez tenha sido essa, afinal, a única viagem que fez comigo.

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