Parabéns, Zé Pedro. 🎸

Hoje Zé Pedro faria 70 anos. O homem partiu cedo, mas há guitarras que ficam para sempre ligadas à nossa própria história.

Há pessoas que desaparecem e há outras que simplesmente deixam de estar fisicamente presentes. Zé Pedro pertence às segundas.

Nasceu a 14 de setembro de 1956. Se fosse vivo, faria hoje 70 anos. E custa um pouco escrever este número porque, quando penso nele, não me aparece um homem de 70 anos. Aparece-me aquele sorriso enorme, a guitarra pendurada, a energia em palco e aquela sensação de que estava sempre genuinamente feliz por estar ali, a fazer barulho, a tocar rock, a ser Xutos.

Os Xutos & Pontapés tornaram-se uma daquelas bandas que já nem precisam de apresentação. Podemos gostar mais de uma época, de um disco ou de uma canção, mas estão entranhados na música portuguesa de uma forma difícil de repetir. Há músicas que atravessaram gerações e deixaram de pertencer apenas à banda. Passaram a pertencer a todos nós.

E Zé Pedro estava no coração disso. Não precisava de ser o homem da frente para ser impossível não reparar nele. Havia uma presença muito própria, uma guitarra, um sorriso e uma forma de viver o palco que parecia dizer que aquele era exatamente o lugar onde queria estar. Talvez seja por isso que ainda hoje parece tão presente.

Eu próprio tenho memórias dos Xutos ao vivo, em Odemira e na Zambujeira. E quem já esteve diante deles sabe que um concerto dos Xutos nunca foi apenas ouvir uma coleção de músicas conhecidas. Havia uma espécie de comunhão. Bastavam os primeiros acordes para aparecerem braços no ar, vozes desafinadas e gente de idades completamente diferentes a cantar exatamente as mesmas palavras.

Poucas bandas portuguesas conseguiram isto durante tanto tempo. Dos primeiros tempos do punk português às grandes salas, festivais e concertos para multidões, os Xutos cresceram sem deixarem de parecer os Xutos. Podiam estar perante algumas centenas ou muitos milhares de pessoas. A sensação era sempre a de cinco tipos que tinham pegado nos instrumentos porque gostavam verdadeiramente daquilo. E no meio deles estava Zé Pedro.

Morreu a 30 de novembro de 2017. Já passaram quase nove anos, e é estranho pensar nisso porque depois começa À Minha Maneira, Contentores, Homem do Leme, Circo de Feras, Não Sou o Único, ou tantas outras, e esses nove anos desaparecem durante alguns minutos.

Talvez seja essa uma das coisas bonitas da música. Ela não respeita muito bem o calendário. Uma pessoa pode partir, uma sala pode fechar, um concerto pode ficar décadas para trás, mas carregamos no play e alguma coisa regressa. Às vezes regressa até uma versão de nós próprios que já não existe.

Hoje Zé Pedro faria 70 anos. Não é preciso transformar a data numa despedida, porque despedidas já houve. Hoje apetece-me fazer o contrário: aumentar o volume e deixar a guitarra tocar.

Parabéns, Zé Pedro. 🎸

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