Astérix vem diretamente do meu tempo de escola. Naquela altura, ir à biblioteca não era apenas entrar numa sala cheia de livros. Era a possibilidade de escolher uma história, levá-la comigo e prolongar a leitura em casa.
Entre os livros que requisitava estavam vários álbuns de Astérix. Ia escolhendo aqueles que se encontravam disponíveis e fui conhecendo diferentes aventuras dos dois gauleses. No entanto, havia um álbum que parecia estar mais vezes à minha espera: Astérix e os Normandos.
Não era o único que levava para casa, mas acabou por ser aquele que requisitei mais vezes. Quando chegava à biblioteca, era frequente encontrá-lo disponível e voltava a entrar na mesma aventura. Repeti tantas vezes essa leitura que quase sabia as falas de cor.
A repetição nunca tornou o álbum aborrecido. Conhecia as personagens, antecipava as piadas e sabia o que aconteceria nas páginas seguintes. Mesmo assim, continuava a divertir-me. A disponibilidade fez daquele livro uma presença habitual no meu tempo de escola e, sem que eu percebesse, deu-lhe um lugar especial na minha memória.
Astérix tinha tudo aquilo de que precisava para me prender às páginas. Havia aventura, viagens, romanos a voar e as habituais discussões daquela pequena aldeia que continuava a resistir. Havia também um humor que funcionava mesmo quando eu ainda não compreendia todas as referências.
Algumas piadas eram imediatas. Outras ficaram à espera de uma leitura feita já com outro olhar. Talvez seja essa uma das razões pelas quais Astérix consegue acompanhar leitores de idades diferentes. Quando somos mais novos, seguimos a aventura e a pancadaria. Mais tarde, começamos a reparar nos jogos de palavras e em tudo aquilo que se escondia no meio das falas.
A biblioteca emprestava-me os álbuns durante alguns dias, mas as histórias permaneciam comigo durante muito mais tempo. Os livros regressavam à estante da escola, enquanto as imagens, as personagens e algumas das falas continuavam guardadas na memória.
Hoje, a relação com Astérix mudou de lugar. Já não preciso de esperar que determinado álbum esteja disponível nem de o devolver dentro do prazo. Tenho uma coleção da Salvat e os gauleses ocupam agora um espaço permanente na minha própria estante.
Há qualquer coisa de especial nessa passagem. O que começou com livros requisitados na biblioteca da escola transformou-se numa coleção em casa. Entre uma coisa e outra passaram anos, mas o prazer de abrir um álbum e regressar à aldeia cercada pelos romanos continua a ser reconhecível.
Para além da coleção, tenho também Astérix e o Grifo e Astérix na Lusitânia. As aventuras continuaram a chegar e eu continuei a acompanhá-las. Ver Astérix e Obélix viajarem até à Lusitânia acrescenta uma proximidade diferente, colocando os dois gauleses num território ligado à nossa própria história.
Os autores e os estilos foram mudando, mas algumas coisas permanecem. Astérix continua pequeno, inteligente e determinado. Obélix continua a garantir que não é gordo e a recordar que caiu no caldeirão quando era pequeno. Os romanos continuam a descobrir, quase sempre da pior maneira, que aquela aldeia não será fácil de conquistar.
Quando olho para a coleção, não vejo apenas uma sequência de lombadas. Vejo também a biblioteca da escola, o momento de procurar os álbuns disponíveis e a satisfação de poder levar um deles para casa.
No meio de todos os Astérix que trouxe da biblioteca, Astérix e os Normandos acabou por ocupar um lugar diferente. Não por ter sido o único, mas por ter sido aquele que encontrei disponível mais vezes e que, por isso, mais vezes me acompanhou.
Foi um dos livros que me ensinou que reler não é apenas repetir. É reencontrar. Podemos conhecer as falas, antecipar as piadas e saber exatamente como a aventura termina. Ainda assim, alguma coisa nos faz voltar.
Como se pode observar, não gosto nadinha de Astérix.
