Reacher: vim pela Neagley, fiquei pela companhia

Depois de Neagley, vieram quatro temporadas de Reacher. Entre pancadaria, suspense e boas companhias, houve motivos para continuar.

Depois de ver Neagley, fui conhecer melhor a série de onde ela saiu. Gostei da personagem, do suspense e da maneira como as peças daquela história foram encaixando. Ficou a curiosidade de a encontrar ao lado de Jack Reacher e perceber como funcionava aquela parceria. Quatro temporadas depois, posso dizer que a visita se prolongou com gosto, mesmo tendo passado boa parte do tempo a pensar que este homem é um belo grunho sabichão.

Digo-o com alguma simpatia. Reacher tem aquela confiança inabalável de quem entra numa sala, percebe tudo antes dos outros e ainda arranja tempo para distribuir pancada. Às vezes basta-lhe olhar para alguém para parecer que já leu o processo inteiro, descobriu a mentira e calculou quantos ossos vai partir. E, por muito exagerado que seja, a verdade é que me diverte.

Há qualquer coisa de engraçado naquela falta de cerimónia. Não perde grande tempo a ser agradável, não parece preocupado em causar boa impressão e tem uma maneira muito própria de encerrar conversas. Algumas acabam porque já disse tudo o que tinha a dizer. Outras porque o interlocutor ficou temporariamente sem condições para continuar. É uma personagem feita de excessos, e parte do prazer está em aceitar esse jogo.

Mas, ao longo das quatro temporadas, percebi que aquilo de que mais gosto surge quando ele tem companhia. A interação com a Neagley, os diálogos com quem lhe faz frente e a confiança entre pessoas que já passaram por muito juntas dão outro sabor à série. Reacher pode ocupar quase todo o enquadramento, mas há espaço para os outros deixarem marca.

A temporada que reúne o antigo grupo da tropa foi uma das minhas preferidas precisamente por isso. Sente-se que aquelas pessoas têm uma história anterior ao momento em que as conhecemos. Há cumplicidade, provocações e uma forma de trabalhar em conjunto que ajuda a acreditar naquele passado partilhado. Gostei de os ver interagir, de perceber como se conheciam e de acompanhar uma investigação que também lhes tocava pessoalmente.

A Neagley tem um lugar especial nesse conjunto. Como cheguei aqui depois de ver a série dela, cada aparição trazia já alguma familiaridade. Gostava de a encontrar, de a ver responder ao Reacher e de sentir aquela confiança que dispensa explicações demoradas. Foi curioso fazer este caminho ao contrário: conhecer primeiro o espaço dela e só depois descobrir melhor a relação com ele.

Também gostei bastante da história do tráfico de armas, em que Reacher se cruza com alguém que julgava ter eliminado no passado. Esse regresso acrescenta uma tensão diferente à investigação. Há um caso para resolver, mas há também uma conta antiga que ficou por fechar. A curiosidade sobre o que realmente aconteceu e sobre a forma como tudo se liga ajudou a manter-me agarrado.

É esse suspense que me faz continuar. A pancadaria faz parte da identidade da série, claro, mas gosto de acompanhar as suspeitas, as descobertas e as mudanças de direção. Quero perceber quem está por trás de quê, quem sabe mais do que diz e em que momento aquela aparente certeza vai cair por terra. Quando a história consegue alimentar essas perguntas, o próximo episódio fica facilmente decidido.

Na quarta temporada, gostei também da Tamara Green e da interação que estabelece com Reacher. Ainda assim, dei por mim à espera de que aparecesse a Neagley ou outra personagem antiga para ajudar. Aquela expectativa acompanhou-me: será agora que regressa alguém conhecido? Quando uma série nos põe à procura desses rostos, é porque eles já ganharam um lugar na nossa maneira de a ver.

E talvez seja essa a melhor surpresa que trouxe destas quatro temporadas. Fui atrás da Neagley, encontrei um protagonista bruto, convencido e quase sempre demasiado certo de si próprio, e acabei por gostar de passar tempo naquele universo. As histórias deram-me suspense e reviravoltas; as personagens deram-me razões para querer voltar.

Quanto ao Reacher, continuo a achar que é um grunho sabichão. Mas já lhe reconheço a graça. Sobretudo quando tem ao lado alguém capaz de lhe responder à altura.

0