O dia em que o tempo se senta à minha mesa

No dia em que faço anos, o tempo senta-se à minha mesa e obriga-me a olhar para o caminho feito, para o que ficou e para tudo o que ainda pode acontecer.

Há dias que chegam com uma luz diferente. O dia 6 de outubro é um desses dias. Não porque o calendário tenha alguma forma especial, mas porque, uma vez por ano, me obriga a parar diante dele e a reconhecer que continuo aqui.

Faço anos. A frase é simples, quase demasiado pequena para tudo o que traz consigo. Dentro dela cabem os lugares por onde passei, as pessoas que encontrei, as que ficaram e as que partiram, os trabalhos que tive, os projectos que comecei e aqueles que ficaram pelo caminho. Cabem também as coisas que ainda não fiz, porque uma vida não é apenas aquilo que conseguimos guardar. É igualmente aquilo que continua à espera de nós.

Imagino o tempo sentado à minha mesa. Não vem vestido de cerimónia nem traz respostas embrulhadas. Senta-se como quem já me conhece, pousa as mãos diante de si e começa a fazer perguntas.

O que fizeste com os dias que recebeste? O que ainda te acende por dentro? Que lugares continuas a chamar casa? Que sonhos, mesmo adormecidos, ainda reconheces quando passam por ti?

Talvez eu lhe fale de Milfontes. Da terra onde vivo há tantos anos, das ruas que já conheço e das paisagens que continuam a surpreender-me. Há lugares que deixam de ser apenas lugares. Tornam-se uma espécie de segunda pele, uma presença que nos acompanha mesmo quando estamos longe.

Talvez lhe fale da música, que tantas vezes chegou antes das palavras. De Queen e Pink Floyd, que permanecem acima de qualquer ranking. Do rock que me acompanhou em tantas fases. Dos concertos, das vozes, das canções que ficaram ligadas a pessoas, momentos e versões antigas de mim próprio.

Talvez lhe fale das fotografias. Da vontade de guardar a luz antes que desapareça, de reparar numa paisagem que outros atravessam sem ver. Uma fotografia nunca segura completamente o instante, mas tenta. E às vezes basta essa tentativa para que uma tarde não se perca por inteiro.

Também lhe falaria do Caderno. Não como quem apresenta uma obra acabada, mas como quem mostra uma mesa onde ainda há folhas espalhadas. O Caderno nasceu de muitas coisas que fui vendo, sentindo e guardando. Memórias, filmes, músicas, caminhos, pensamentos e pequenas imagens do quotidiano. Escrever tem sido uma forma de continuar a conversar com o mundo, mesmo quando não tenho uma resposta pronta.

O tempo talvez sorrisse ao ouvir isto. Afinal, sabe que quase nada fica exactamente como imaginámos. Há trabalhos que terminam, portas que se fecham, planos que mudam de nome. Há momentos em que parece que estamos a recomeçar, quando na verdade apenas levamos connosco tudo o que já vivemos.

Fazer anos também é perceber isso. Não somos uma linha perfeitamente desenhada. Somos uma estrada com curvas, desvios, paragens e alguns quilómetros feitos sem mapa. Há paisagens que nos surpreendem. Há outras que só aprendemos a apreciar muito depois de termos passado por elas.

Não quero transformar este dia num balanço solene. Ainda não sei fazer contas à vida sem deixar alguma coisa de fora. Prefiro pensar que cada aniversário é uma janela aberta. Atrás de mim ficam as divisões onde já estive. À minha frente, o ar entra sem pedir licença e traz a possibilidade de mais um caminho.

O bolo terá velas. O tempo continuará a andar. Amanhã haverá trabalho, contas, mensagens, preocupações e qualquer coisa inesperada pelo meio. A vida não suspende o movimento só porque fazemos anos. Talvez seja essa a sua maneira mais honesta de nos oferecer um presente.

Por isso, neste dia, não peço ao tempo que volte atrás. Peço-lhe apenas que não me roube a capacidade de reparar. Que eu continue a ver a luz sobre o mar, a ouvir uma canção até ao fim, a guardar uma rua, uma conversa ou um rosto. Que continue a ter vontade de escrever quando alguma coisa dentro de mim disser que vale a pena.

O tempo senta-se à minha mesa, olha para mim e espera.

Eu levanto o copo, sopro as velas e respondo-lhe sem grandes discursos:

Ainda há estrada depois do bolo.

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