A Costa da Caparica ficou-me na memória com um dia inteiro lá dentro. Íamos de manhã para a praia e só dávamos o passeio por terminado depois do jantar na Merendeira. Pelo meio havia um restaurante no centro, uma tarde no parque e um segundo encontro com o mar. Quando penso nessas idas, lembro-me sobretudo desse ritmo, de como um dia conseguia ter espaço para tantas coisas simples.
A manhã pertencia à praia. O mar aberto e a extensão da areia davam o cenário, e nós tínhamos aquele pedaço do dia para estar ali. Há qualquer coisa num areal que muda a nossa relação com as horas. O olhar deixa de encontrar uma parede logo à frente, acompanha a água, perde-se um pouco no horizonte. Talvez uma parte do descanso venha daí, de podermos olhar para longe sem ter de chegar a lado nenhum.
Ao almoço, deixávamos a praia e íamos a um restaurante no centro da Costa. Gosto de recuperar esse pormenor porque ele devolve a cidade à memória. Entre a areia e a mesa havia ruas, movimento, a vida de quem morava ou trabalhava por ali. Para nós era um dia de passeio; à nossa volta, a Costa continuava a ser a casa de outras pessoas. A praia aproxima muita gente de um lugar, mas basta afastarmo-nos um pouco da água para percebermos que há mais vida para conhecer.
Depois do almoço, íamos para o parque passar parte da tarde. Era outro modo de ocupar o mesmo dia, entre o verde e a sombra das árvores. O Parque Urbano da Costa da Caparica, onde se realiza o festival O Sol da Caparica, entra nesta recordação por esse lado tranquilo. Ao pensar nele, regresso primeiro ao intervalo entre duas idas à praia, à possibilidade de mudar de paisagem sem dar o passeio por acabado.
Lá pelas quatro da tarde, voltávamos ao mar. Esse regresso é um dos pormenores de que mais gosto nesta lembrança. Já tínhamos estado na praia de manhã, mas ainda havia vontade de voltar. A luz vai mudando ao longo do dia e basta isso para o mesmo lugar ganhar outra presença. Depois da pausa no parque, a praia tinha novamente o seu tempo. Hoje, ao contar este percurso, percebo que o descanso também podia estar nessa liberdade de sair e regressar.
O jantar era na Merendeira. Dizer o nome chega para encontrar a última paragem, como acontece com certos lugares que ficam ligados aos nossos passeios. Ainda havia esse momento à mesa antes de dar o dia por terminado. Ficou a sequência: a manhã na praia, o almoço no centro, o parque, o mar outra vez e o jantar. A Merendeira passou a fazer parte da minha imagem da Costa tanto como a areia e as árvores.
Talvez por isso estas memórias sejam tão fáceis de reconhecer e tão difíceis de explicar a quem não esteve lá. Vistas de fora, parecem um passeio vulgar. Para quem as guarda, têm uma ordem própria, feita de pequenas passagens que ainda conseguimos acompanhar. Basta lembrar o regresso à praia pelas quatro para o resto do dia começar a aparecer atrás dele.
É essa Costa da Caparica que trago ao Caderno. A das praias, claro, mas também a do almoço no centro e da tarde no parque. Um lugar vivido ao longo de várias horas, com tempo para o descobrir de maneiras diferentes. Se me pedissem uma fotografia dessas idas, teria dificuldade em escolher o momento. Talvez precisasse de várias, pousadas umas ao lado das outras, para caber tudo até ao jantar.
