Há histórias que o cinema se recusa a deixar sossegadas. Os Três Mosqueteiros é uma delas. A obra de Alexandre Dumas já foi adaptada vezes sem conta, umas com grande respeito pela época, outras com mais liberdade. A versão de 2011, realizada por Paul W. S. Anderson, escolheu claramente a segunda hipótese. Em vez de avançar em bicos de pés diante do clássico, entrou pela porta com espadas, explosões, acrobacias e barcos voadores.
É precisamente essa falta de medo do exagero que me faz gostar tanto deste filme. Ele sabe que está a pegar numa história conhecida e não tenta fingir que descobriu uma maneira solene de a contar. Prefere transformá-la numa grande aventura, com o ritmo de uma banda desenhada e uma imaginação que não reconhece grandes limites. Nem sempre é subtil, mas também nunca pretende ser.
Logan Lerman interpreta um D’Artagnan jovem, impulsivo e demasiado seguro de si, como deve ser alguém que chega a Paris convencido de que nasceu para ser mosqueteiro. Pelo caminho, consegue arranjar três duelos para a mesma hora, um com Athos, outro com Porthos e outro com Aramis. É a velha entrada de D’Artagnan na história, mas filmada com energia, humor e a sensação de que tudo pode transformar-se numa perseguição ou numa luta de espadas.
Os três mosqueteiros também funcionam muito bem como grupo. Matthew Macfadyen dá a Athos o peso de quem já foi traído e deixou de acreditar facilmente nos outros. Ray Stevenson faz de Porthos uma força da natureza, sempre pronto para entrar numa luta. Luke Evans traz a Aramis a elegância necessária para parecer tão confortável com uma espada como com uma frase bem colocada. Juntos, parecem três antigos heróis que estavam apenas à espera de uma desculpa para regressarem ao caminho.
Depois temos Milla Jovovich como Milady de Winter, personagem que neste filme não se limita a seduzir, manipular e trair. Milady luta, salta, desliza entre mecanismos de segurança e enfrenta adversários como se tivesse escapado temporariamente de outro universo de Paul W. S. Anderson. Pode não ser a Milady mais discreta que o cinema já mostrou, mas é certamente uma das mais divertidas. A própria Milla Jovovich parece perceber perfeitamente o tipo de filme em que está e entrega-se ao espetáculo sem hesitações.
Orlando Bloom aparece como o duque de Buckingham e diverte-se a construir uma personagem vaidosa, arrogante e quase ridícula de tão convencida da própria importância. Christoph Waltz interpreta o cardeal Richelieu com aquela calma perigosa que consegue fazer parecer uma ameaça até uma conversa aparentemente inocente. Há ainda Mads Mikkelsen como Rochefort, de espada na mão e um olhar que nunca promete nada de bom. É um elenco cheio de rostos conhecidos, mas cada um encontra o seu espaço dentro da aventura.
E depois existem os barcos voadores. O filme pega em projetos atribuídos a Leonardo da Vinci e imagina enormes navios de guerra a cruzarem o céu, com velas, canhões e tripulações inteiras a combater muito acima dos telhados de Paris. É aqui que a história deixa definitivamente para trás qualquer preocupação com a fidelidade histórica e abraça uma espécie de aventura steampunk. Para alguns espectadores, este pode ter sido o momento em que o filme foi longe demais. Para mim, é uma das razões por que continua tão fácil de recordar.
Não vejo esta versão como uma substituição do livro nem como uma tentativa de contar a história definitiva dos mosqueteiros. Vejo-a como uma variação muito livre, quase uma brincadeira cinematográfica feita por alguém que olhou para Dumas e imaginou quanto mais poderia acrescentar àquela aventura. O resultado é colorido, barulhento, rápido e assumidamente impossível. Há filmes que tentam esconder os seus excessos. Este parece orgulhoso de cada um deles.
Talvez por isso tenha dividido tanto quem o viu. Quem procurava uma adaptação rigorosa encontrou barcos voadores, lutas coreografadas como bailados e personagens levadas quase até à caricatura. Quem aceitou entrar naquele jogo encontrou uma aventura sem vergonha de querer divertir. Eu fiquei nesse segundo grupo. Gosto do elenco, do ritmo, da imagem e da forma como o filme transforma uma história tantas vezes contada em qualquer coisa inesperadamente leve.
Tenho esta versão na minha coleção e continuo a olhar para ela como um daqueles filmes que não precisam de pedir desculpa pelo prazer que oferecem. Não será o retrato mais fiel dos mosqueteiros de Alexandre Dumas, mas mantém aquilo que sempre esteve no coração da história: amizade, coragem, lealdade, traição e a vontade de enfrentar o mundo com uma espada na mão. O resto são barcos voadores. E, francamente, às vezes um bom barco voador é exatamente aquilo de que uma velha aventura precisa.
Quando os mosqueteiros conquistaram o céu
Espadas, traições e barcos voadores. Esta versão dos mosqueteiros não teme o exagero e é precisamente por isso que gosto dela.
