Nas viagens de Venda do Pinheiro para Milfontes, Alcácer do Sal era um dos lugares pelo caminho. Lembro-me de almoçar num dos restaurantes das arcadas, perto do Sado. É essa a imagem que me vem primeiro quando penso na cidade: uma pausa na viagem, uma mesa onde parar e o rio ali perto, enquanto o resto do caminho ficava por fazer. Milfontes era o destino, mas Alcácer também acabou por ganhar o seu lugar na memória.
Há terras que começamos por conhecer assim, através das nossas deslocações. Entramos para almoçar, atravessamos uma rua, reconhecemos uma fachada e seguimos viagem. Com o tempo, aquela paragem passa a fazer parte da maneira como recordamos o percurso. Quando penso nessas viagens, Alcácer surge com a naturalidade de quem também tinha lugar nelas. Ficou ligada à estrada entre Venda do Pinheiro e Milfontes, mas ganhou um rosto próprio junto ao Sado.
A cidade ajuda a que isso aconteça. As casas e as ruas sobem pela encosta até ao castelo, enquanto cá em baixo o rio abre espaço à paisagem. É uma disposição que convida a levantar os olhos e depois a deixá-los regressar à água. Entre a parte alta e a margem há uma cidade inteira para descobrir, com bairros antigos e caminhos que se cruzam. A minha recordação começa mais abaixo, perto das arcadas, à escala simples de uma paragem para comer.
O Sado, por sua vez, tem muito para contar. Durante muito tempo, por aqui viajaram sal, mercadorias e pessoas, e os galeões do sal guardam a memória dessa atividade. A cidade cresceu ligada a essa circulação. Gosto de pensar nisso quando recordo as minhas próprias passagens: muito antes de Alcácer entrar nos nossos percursos de estrada, já havia quem chegasse e partisse por água. O rio que acompanha hoje um almoço à sua beira também foi caminho e lugar de trabalho.
Há uns meses voltei a Alcácer para distribuir encomendas. Foi um regresso com outro motivo e outra atenção. Quem anda a fazer entregas precisa de encontrar moradas, perceber os acessos e olhar para os números das portas. A cidade ganha pormenores que facilmente escapam a quem está apenas de passagem. Há uma diferença entre reconhecer um lugar da estrada e ter de o percorrer em trabalho. Nesse regresso, Alcácer passou também a fazer parte do meu dia dessa forma.
É uma maneira muito concreta de conhecer uma terra. Uma rua deixa de ser apenas uma rua bonita quando precisamos de saber onde fica determinada porta. Os percursos ganham utilidade, os nomes tornam-se referências e o mapa começa a corresponder a lugares reais. Mesmo com o trabalho a pedir atenção, vamos acrescentando alguma coisa ao que já sabíamos. No meu caso, às memórias das viagens e dos almoços juntou-se esta experiência mais recente, feita de entregas e moradas.
Acho graça a estes reencontros. Voltamos a um sítio por uma razão diferente e encontramos lá uma parte do que vivemos antes. A cidade continua com a sua vida, enquanto nós juntamos épocas que talvez estejam separadas por muitos anos. Quando hoje penso em Alcácer, cabem nessa lembrança as viagens desde Venda do Pinheiro, a paragem nas arcadas e os meses mais recentes, em que ali andei a trabalhar.
Milfontes continua a ser o destino dessas viagens que recordo. Mas, ao escrever sobre Alcácer, dou por mim a demorar um pouco mais na paragem. Volto àquele almoço junto ao Sado e encontro pelo caminho o regresso com as encomendas. São episódios simples, daqueles que raramente tratamos como assunto. Agora têm lugar no Caderno, e Alcácer fica por aqui mais um bocadinho antes de seguirmos viagem.
