Há séries que nos prendem porque queremos saber o que vai acontecer. WandaVision prendeu-me primeiro porque eu queria perceber o que estava a ver. Conhecia aquelas personagens do universo Marvel, mas encontrá-las dentro de uma sitcom antiga, com uma casa impecável, vizinhos curiosos e problemas domésticos resolvidos entre risos, era uma estranheza que dava vontade de continuar.
E havia o prazer de reconhecer aquela televisão. A passagem pelas várias épocas das sitcoms, as mudanças nos cenários, na roupa, na maneira de representar e até no ritmo das conversas traziam uma familiaridade engraçada. Parecia que estávamos a percorrer décadas de televisão pela mão de duas personagens que, à partida, pertenciam a outro tipo de histórias. Gostei dessa brincadeira e da forma como a série nos deixava acomodar por momentos, antes de voltar a pôr qualquer coisa fora do lugar.
Porque havia sempre qualquer coisa. Um olhar que demorava mais do que devia, uma reação estranha, uma falha naquela vida demasiado arrumada. Podíamos não perceber ainda o que se passava, mas sentia-se que aquela felicidade tinha uma costura a abrir. E foi essa mistura entre o conforto do conhecido e a desconfiança que me conquistou.
Depois começamos a perceber o tamanho do que está por trás de Westview. A Wanda tinha criado uma realidade onde podia voltar a viver com o Vision, ter uma casa, uma família e um quotidiano que a perda lhe tinha roubado. Uma bolha onde a vida parecia obedecer à vontade de quem precisava desesperadamente de acreditar nela.
Foi aí que fiquei dividido. Há uma dor na Wanda que consigo compreender, mesmo sem conseguir imaginar o que seria ter o poder de lhe dar aquela forma. A vontade de recuperar alguém, de prolongar uma conversa ou de voltar a entrar numa casa onde essa pessoa ainda nos espera é profundamente reconhecível. A série leva esse desejo até um lugar impossível e deixa-nos ver, durante algum tempo, como seria habitá-lo.
Só que havia outras pessoas dentro daquele desejo. Pessoas com vidas próprias, obrigadas a representar os papéis necessários para manter de pé a felicidade de outra pessoa. À medida que isso se torna mais claro, os cenários acolhedores dos primeiros episódios começam a pesar de outra maneira. Aquilo que nos tinha divertido também era uma prisão.
Lembro-me especialmente desse desconforto quando os habitantes conseguem mostrar o sofrimento e querem sair. De repente, já não estamos apenas a acompanhar a dor da Wanda. Estamos a olhar para quem ficou sem liberdade para que ela pudesse fugir à sua própria perda. Senti pena dela, sim, mas também queria que deixasse aquelas pessoas partir. Uma coisa não anulava a outra, e gostei de a série me deixar nesse lugar pouco confortável.
O próprio Vision torna tudo mais triste. O Vision que vive naquela bolha nasce da magia da Wanda, mas tem consciência, dúvidas e vontade de perceber o que se passa. Não se limita a ocupar o lugar que ela lhe reservou. Observa, desconfia e aproxima-se de uma verdade que ameaça a existência dos dois.
Há qualquer coisa de doloroso nisso: a pessoa que ela recria para não ter de enfrentar a perda acaba por questionar o mundo que torna possível o seu regresso. A cumplicidade entre eles continua lá, mas já não chega para esconder aquilo que está à volta. E nós sabemos que desfazer aquela realidade significa também voltar a uma despedida que a Wanda nunca conseguiu aceitar.
Para mim, foi essa passagem que deu força a WandaVision. Entrei pela curiosidade e pela memória das sitcoms e acabei numa história sobre o luto, o amor e o sofrimento que podemos causar quando tentamos impedir uma perda de ser definitiva. Com magia e superpoderes pelo meio, claro, mas com sentimentos que não precisam de pertencer à Marvel para serem compreendidos.
E depois havia aquela vizinha que parecia estar sempre por perto. Intrometida, inconveniente e divertida, com uma presença que chamava a atenção mesmo quando ainda não sabíamos bem o que fazer dela. Gostei da Agatha e da revelação de quem se escondia por trás daquela aparente familiaridade. Foi uma das personagens que levei comigo quando saí de Westview.
Mais tarde, a série dela havia de me agarrar de outra maneira. Mas essa conversa fica para o próximo texto. Antes de seguir pelo Caminho das Bruxas, queria regressar a esta casa onde tudo parecia tão feliz e onde, afinal, tanta gente queria apenas poder abrir a porta e sair.
