Entre O Corvo e a saudade: os dias dos nossos mortos

De O Corvo às tradições de vários países, uma reflexão sobre a saudade e os gestos com que lembramos os nossos mortos e celebramos a vida.

Há datas que me chegam primeiro através do cinema. A noite de 30 de outubro é uma delas. Basta falar na Noite do Diabo para me lembrar de O Corvo, o filme de 1994, com Brandon Lee. Da chuva, da cidade em chamas, da música e daquele rosto pintado onde cabiam a fúria e uma tristeza imensa. É nessa noite que Eric Draven é assassinado e que a vida que partilhava com Shelly é destruída. Quando regressa, um ano depois, traz consigo o amor por ela e a violência de tudo o que lhes foi roubado.
A vingança conduz a história, mas são as recordações que lhe dão peso. Antes daquele homem de negro, existia alguém com uma casa, uma mulher que amava e um futuro pela frente. O filme deixa-nos sentir essa vida interrompida. E talvez seja por isso que continua a acompanhar-me: por baixo da maquilhagem e das cenas de ação, permanece a dor de quem tinha tanto para viver.
Nestes últimos dias de outubro, essa proximidade entre a vida e a morte sai do cinema e ocupa as ruas. A Noite do Diabo pertence a certas tradições regionais, sobretudo norte-americanas. Segue-se o Halloween, a 31, depois o Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro, e o dos Fiéis Defuntos, a 2. Em poucos dias, passamos dos sustos e dos disfarces às flores, às velas e às visitas ao cemitério. Pelo meio, há crianças a pedir doces e famílias a preparar comida. Cada gesto tem a sua história, embora todos acabem por se encontrar nesta altura do ano.
Muito antes das abóboras nas montras, já a chegada do inverno tinha os seus rituais. Nas tradições gaélicas da Irlanda e da Escócia, o Samhain assinalava o fim das colheitas e a entrada na metade escura do ano. No folclore associado a esta época, o mundo dos vivos aproximava-se do outro mundo, entre fogueiras, seres sobrenaturais e oferendas. Mais a norte, na Escandinávia, as Vetrnætr, as Noites de Inverno, reuniam banquetes e rituais de passagem de estação. Há raízes antigas naquilo que celebramos hoje, cruzadas ao longo dos séculos com práticas cristãs e costumes locais. A história foi tomando formas diferentes de terra para terra.
Em Portugal, essa história também cabe num saco levado de porta em porta. No dia 1 de novembro, o Pão por Deus, com outros nomes conforme a região, põe crianças à espera de bolos, broas, frutos secos ou guloseimas. O «doce ou travessura» da noite anterior tem o seu próprio percurso, mas reconhecemos nos dois costumes o gesto de abrir a porta e oferecer alguma coisa. Numa época em que tantas portas permanecem fechadas, gosto de pensar nesse pequeno encontro entre quem pede e quem dá.
Na Sicília, a ligação entre as crianças e os mortos torna-se ainda mais próxima. Na Festa dei Morti, a 2 de novembro, há famílias em que os doces e as prendas são apresentados como ofertas dos parentes falecidos. A criança procura o que lhe deixaram, saboreia um doce, ouve falar de alguém que talvez nunca tenha conhecido. Essa pessoa entra na sua vida através de uma história e de um gesto de generosidade. É uma maneira delicada de dar lugar aos antepassados dentro da família.
Do outro lado do Atlântico, o Día de Muertos mexicano enche de cor a recordação. Nas ofrendas, colocam-se fotografias, velas, flores, bebidas e pratos de que os falecidos gostavam. Há caveiras de açúcar e pan de muerto. A comida conserva uma intimidade que uma data, por si só, dificilmente consegue guardar. Preparar o prato preferido de alguém é recordar um gosto, uma rotina, uma presença concreta. A saudade pode sentar-se à mesa e conviver com uma história que ainda nos faz rir.
Em Pomuch, no estado de Campeche, esse cuidado toma uma forma que impressiona pela proximidade. Na última semana de outubro, famílias vão ao cemitério limpar as ossadas dos seus parentes e trocar os panos bordados que forram os ossuários. As caixas ficam em nichos abertos, com os restos visíveis. Há nomes bordados, flores e mãos ocupadas a tratar daquilo que permanece. Quem chega de fora pode estranhar. A mim, toca-me sobretudo a continuidade do gesto: alguém continua a merecer tempo, delicadeza e um pano novo. O cuidado atravessa a morte e encontra outra maneira de se cumprir.
Na Guatemala, a memória ganha altura. Em localidades como Sumpango, o dia 1 de novembro é marcado pelos papagaios de papel gigantes. A tradição liga os papagaios à comunicação com os mortos, e alguns levam mensagens dirigidas a quem partiu. Fico a pensar naquilo que escreveríamos num desses papéis. Uma notícia da família, uma pergunta que ficou por fazer, um agradecimento tardio. Ou apenas o nome de alguém, escrito com o vagar que raramente lhe damos durante o resto do ano.
Há também sabores próprios destes dias. No Equador, a 2 de novembro, a colada morada, feita com milho, frutas e especiarias, acompanha as guaguas de pan, pães moldados em pequenas figuras humanas. Nas Filipinas, durante o Undás, muitas famílias limpam as sepulturas, levam flores, velas e comida, e permanecem no cemitério durante horas, por vezes pela noite dentro. Entre a oração, a refeição e a conversa, prolonga-se a visita. Quem morreu continua a ter um lugar no encontro familiar.
Estas tradições deixam-me a pensar naquilo que escolhemos conservar de uma pessoa. Uma fotografia guarda-lhe o rosto. Uma receita pode devolver-nos o cheiro da sua cozinha. Uma expressão que repetimos sem dar por isso traz a sua voz para dentro da nossa. Depois existem as histórias contadas à mesa, as teimosias de que ainda nos rimos, os pequenos hábitos que passam de geração em geração sem que alguém os tenha escrito. Há pessoas que continuam presentes em gestos de quem já nem sabe bem de onde eles vieram.
Também há recordações difíceis. Ausências com as quais aprendemos a viver devagar, relações que deixaram coisas por resolver, dias em que o silêncio é tudo o que conseguimos oferecer. Cada pessoa encontra a sua maneira de atravessar estas datas. Pode ser numa visita ao cemitério, numa vela acesa em casa ou num pensamento que aparece a meio de uma tarefa banal. A intimidade da saudade merece esse espaço.
Lembrar quem morreu também me faz olhar para quem ainda está à mesa. Para as histórias que podemos ouvir agora, para as perguntas que vamos adiando, para o tempo que parece sempre mais fácil encontrar na semana seguinte. Enquanto alguém nos pode responder, a memória ainda se faz a duas vozes. Vale a pena demorarmo-nos nessa conversa.
Volto então a O Corvo, à chuva e a Eric Draven. O cinema permite-lhe um regresso impossível, alimentado pelo amor e pela perda. Fora do ecrã, temos os nossos gestos mais pequenos: levar flores, oferecer um doce, preparar uma refeição, cuidar de um ossuário, escrever uma mensagem para o céu. Nestes dias, entre o fim de outubro e o princípio de novembro, damos tempo aos nossos mortos. E, ao recordar como viveram, voltamos a encontrar alguma coisa da vida que partilhámos com eles.

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