Butterfly: demorou a agarrar-me e deixou-me sem resposta

Butterfly começou por me parecer plana, foi-me agarrando e terminou com uma surpresa. O cancelamento deixou a história suspensa.

Comecei a ver Butterfly e, a meio do primeiro episódio, ainda estava à espera de sentir alguma coisa que me prendesse à história. Parecia-me tudo um pouco plano. Havia personagens para conhecer, segredos por descobrir e motivos para desconfiar, mas faltava qualquer coisa que me puxasse para dentro daquele mundo. Continuei a ver, ainda sem saber muito bem se aquilo ia dar em alguma coisa.

Disponível na Prime Video, a série acompanha David Jung, um antigo agente interpretado por Daniel Dae Kim, que vive na Coreia do Sul e acaba confrontado com o passado e com a filha, Rebecca. A espionagem cruza-se com uma relação familiar onde há muita coisa por resolver. Um pai que quer recuperar a ligação à filha e uma filha que tem razões para desconfiar dele: havia ali matéria para me interessar.

O que me custou inicialmente foi a maneira de contar essa história. A realização, o ritmo e a forma de apresentar a ação deixavam-me a desejar mais intensidade. Sentia que algumas situações podiam ter outro peso, que aquele perigo podia chegar mais perto de quem estava a ver. Gosto quando uma cena me faz sentir que alguma coisa está prestes a correr mal, mesmo antes de alguém pegar numa arma.

Uma conversa, um olhar ou uma hesitação podem criar tanta tensão como uma perseguição. Era essa ligação entre o que estava a acontecer e aquilo que eu sentia que queria encontrar com mais força em Butterfly. A série tinha acontecimentos capazes de me despertar curiosidade, mas a forma de os levar ao ecrã nem sempre lhes dava a intensidade que eu esperava. Fiquei com a sensação de que outra abordagem à ação e ao ritmo podia tirar mais partido daquela história.

Ainda assim, fui ficando. Ao longo dos episódios, comecei a querer perceber melhor aquelas personagens e até onde podiam confiar umas nas outras. A relação entre pai e filha trazia feridas que não desapareciam só porque ambos queriam seguir em frente. Foi por aí que a série me foi agarrando. Acabei por gostar, mantendo as reservas sobre a maneira como tudo era contado. A primeira impressão mudou, mesmo sem eu esquecer o que me tinha incomodado.

E depois veio o final. Quando parecia haver espaço para respirar, surgiu uma situação que eu não esperava e que punha em causa a confiança construída até então. Fiquei com uma dúvida forte sobre o que poderia acontecer a seguir. Foi daqueles momentos em que olhamos para o que acabámos de ver e pensamos que ainda há muita história por contar. A minha reação foi precisamente essa: estava ali uma boa abertura para uma segunda temporada.

Só depois soube que a Prime Video tinha cancelado Butterfly, em outubro de 2025. E aquela abertura passou a saber a história interrompida. O final estava a pedir continuação, mas a continuação não avançou. A curiosidade que a série tinha conseguido despertar ficou sem destino, presa a uma situação que podia dar outro peso à relação entre aquelas personagens.

Como espectador, custa-me chegar a este ponto e descobrir que uma parte importante da narrativa ficou dependente de uma renovação que nunca aconteceu. Um final aberto pode deixar-nos espaço para imaginar, mas aqui senti que faltava um capítulo. A série tinha acabado de levantar uma questão demasiado importante para ficar simplesmente por ali, sobretudo depois do caminho percorrido para aproximar aquelas pessoas.

Fiquei com vontade de ver uma segunda temporada e de perceber se também encontraria a intensidade que senti faltar à primeira. Isso já diz alguma coisa sobre uma série que começou por me parecer plana. Butterfly conseguiu mudar a minha opinião e deixar-me à espera de mais. Desta vez, a vontade de continuar ficou apenas deste lado do ecrã.

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