O livro que deixou de ser obrigação

Mandaram-me ler Aparição na escola. Depois de um engano, encontrei um livro que deixou de ser obrigação e ficou comigo.

No tempo da escola, mandaram-nos ler Aparição, de Vergílio Ferreira. Não me lembro já de todos os pormenores dessa altura, nem sequer de como o professor apresentou o livro à turma, mas lembro-me da compra. Talvez porque, antes de chegar ao livro certo, trouxe outro para casa.

Por engano, comprei Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Só mais tarde percebi que não era aquele o título pedido e tive de voltar à livraria para comprar Aparição. O primeiro ficou por ler e acabou, muitos anos depois, por seguir numa doação. O segundo era o livro que eu devia ter comprado desde o princípio, mas tornou-se também um dos livros escolares de que guardei melhor memória.

Nem sempre acontece, porque há livros que chegam pela mão da escola já carregados de obrigação. Antes de abrirmos a primeira página, já trazem perguntas de interpretação, fichas de leitura, testes marcados e a sensação de que alguém vai querer saber o que o autor quis dizer. Por vezes, tudo isso entra no livro antes de nós e não deixa espaço para o encontro verdadeiro.

Com Aparição, foi diferente. Li-o porque tinha de o ler, mas gostei dele sem sentir que estava apenas a cumprir uma tarefa. Havia qualquer coisa naquela escrita que me puxava para dentro, para um lugar onde as perguntas eram mais importantes do que as respostas. Não era um livro de grandes aventuras, nem precisava de levar a personagem para o outro lado do mundo. A viagem acontecia por dentro, naquele território mais difícil onde uma pessoa começa a perceber que existe e que essa consciência pode ser, ao mesmo tempo, uma descoberta e um peso.

Alberto Soares, o professor que chega a Évora, olha para os outros, para a cidade e para si próprio como quem tenta compreender aquilo que está sempre um pouco além das palavras. A vida, a morte, a solidão, a consciência, a dificuldade de nos vermos verdadeiramente. Tudo isso atravessa o livro sem se transformar numa lição fechada.

Talvez eu não tivesse idade para compreender todas as camadas de Aparição. Provavelmente não tinha. Mas os livros não precisam de ser completamente compreendidos para deixarem marca. Às vezes basta uma atmosfera, uma inquietação, uma frase que fica a ecoar sem sabermos explicar porquê.

É isso que me resta hoje dessa leitura. Não consigo reconstruir cada capítulo nem recordar todas as personagens com nitidez. A memória foi apagando os contornos, como acontece com tantas coisas lidas há muitos anos. Mas ficou a sensação de ter encontrado um livro diferente, mais silencioso e mais exigente, que não se limitava a contar uma história. Fazia-nos parar diante da nossa própria existência.

Também me ficou Évora. Mesmo sem ter vivido a cidade através dos meus próprios passos naquela altura, passei a associá-la a uma luz parada, a casas fechadas, a ruas onde o calor parece prolongar os silêncios. Há livros que se apropriam dos lugares e lhes acrescentam uma segunda paisagem. Depois de os lermos, já não conseguimos separar totalmente a cidade real da cidade que ficou dentro das páginas.

Talvez tenha sido essa a verdadeira aparição do livro para mim. Não uma revelação súbita nem uma resposta clara, mas a descoberta de que a literatura também podia entrar em zonas onde eu ainda não sabia pensar. Até então, muitos livros eram sobretudo histórias. A partir dali, comecei a perceber que um romance podia ser também uma pergunta demorada.

Durante anos, algumas leituras escolares ficaram associadas ao esforço de chegar ao fim. Aparição não. Lembro-me de ter gostado, e essa lembrança vale mais do que qualquer resumo que pudesse fazer agora. Gostei quando ainda não tinha escolhido o livro, quando ele me chegou por obrigação e depois encontrou maneira de deixar de ser obrigatório.

É curioso pensar que tive de ir duas vezes à livraria. Primeiro trouxe a viagem errada, cheia de mares e terras distantes. Depois voltei e trouxe um livro quase parado no mesmo lugar, mas onde a distância era outra.

Peregrinação levou-me, por engano, para fora. Aparição levou-me, pela primeira vez, um pouco mais para dentro.

Um deles passou pela minha estante sem ser lido e acabou por partir. O outro foi comprado porque tinha de ser, mas ficou na memória porque alguma coisa nele me encontrou. Talvez os livros certos sejam assim. Nem sempre são os que escolhemos. São os que, depois de fechados, continuam durante algum tempo a olhar para nós.

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