Às vezes, uma descoberta não aparece completamente ao acaso. Eu tinha estado a ouvir os Nickelback quando o Spotify decidiu continuar o caminho por conta própria. Na sequência surgiu um nome que nunca tinha ouvido: Linda Varg. A música chamava-se Stranger in Tokyo. Não veio de uma pesquisa minha nem da recomendação de alguém. Nasceu diretamente daquilo que eu estava a ouvir.
Não conhecia o nome, não conhecia a voz e não tinha qualquer memória onde a encaixar. Assim que a música começou, a primeira reação foi simples: bela voz, sim senhor. Depois veio o ritmo, daqueles que não precisam de correr para nos levar com eles. Quando terminou, já não era apenas mais uma faixa que o Spotify tinha colocado no caminho.
Há uma força imediata na voz de Linda Varg. Não é apenas potência, porque cantar mais alto nunca foi suficiente para tornar uma voz interessante. O que prende é a forma como consegue atravessar as guitarras sem perder a emoção. Há momentos em que parece pronta para dominar um palco inteiro e outros em que deixa passar uma fragilidade quase escondida. A canção vive precisamente nesse equilíbrio entre a força que mostra e a solidão que conta.
Stranger in Tokyo usa a cidade como um lugar de luzes, velocidade e distância. Tóquio aparece envolvida em néon, tecnologia e movimento, mas no centro de tudo está alguém que se sente sozinho, longe da pessoa que gostaria de ter por perto. A cidade é enorme, o som também, e mesmo assim existe um vazio que nenhuma luz consegue preencher. É esse contraste que dá outra profundidade ao ritmo. Podemos deixarmo-nos levar pelas guitarras e pelo refrão, mas por baixo de tudo continua a existir alguém a tentar enviar um sinal para casa.
Foi a música que me levou a procurar quem era Linda Varg. Descobri então que o nome era novo para mim, mas a artista está longe de ter começado agora. Linda vem da Suécia e nasceu em Grytnäs, uma pequena aldeia na região de Dalarna, com apenas algumas dezenas de habitantes. Há qualquer coisa de curioso neste percurso: uma voz saída de um lugar tão pequeno acabar por chegar até mim através de uma canção passada no meio da imensidão de Tóquio.
No início dos anos 2000, venceu a versão sueca de Popstars e integrou os Supernatural, grupo que alcançou grande sucesso no país. Mais tarde passou também pelo teatro musical, com Chicago em Copenhaga, e chegou à fase final do Idol sueco em 2010. Pelo caminho foi atravessando a pop, o rock e outras sonoridades, até encontrar uma forma de cantar onde a energia e a vulnerabilidade podem existir na mesma música.
Esta parte da história interessa-me porque recorda uma coisa que esquecemos muitas vezes. Uma descoberta nossa não é necessariamente uma estreia para o resto do mundo. Linda Varg já tinha vivido palcos, discos, programas de televisão e mudanças de direção muito antes de aparecer na minha lista. Eu é que ainda não tinha chegado até ela. A música está cheia destes encontros tardios. Há artistas que caminham durante anos numa estrada paralela à nossa e basta uma canção para as duas estradas finalmente se cruzarem.
Ao procurar quem estava por trás de Stranger in Tokyo, a sequência ganhou ainda mais sentido. A produção, mistura e masterização ficaram a cargo de Chris Baseford, produtor que trabalhou com nomes como Nickelback, Avril Lavigne e Daughtry. Afinal, o Spotify não tinha dado um salto tão grande quanto parecia. Linda Varg apareceu depois dos Nickelback porque existe uma linha sonora capaz de ligar os dois mundos, e até um produtor em comum. A música foi deixando pequenas pistas e eu limitei-me a segui-las.
Também não é difícil perceber por que razão a canção me prendeu. Tem guitarras com peso suficiente para não passarem despercebidas, um ritmo que empurra tudo para a frente e uma voz que sabe ocupar o centro sem esmagar o resto. Há ali ecos do rock feito para grandes palcos, mas a música não soa como um exercício calculado para encher uma arena. Conserva qualquer coisa de pessoal, como se a dimensão do som servisse apenas para tornar mais audível aquela sensação de estar perdido num lugar demasiado grande.
Não vou fingir que uma canção chega para conhecer toda a obra de uma artista. Chega, no entanto, para despertar curiosidade. Foi sempre assim que muitas bandas entraram na minha vida. Primeiro uma faixa, depois outra, e um dia percebemos que já estamos a procurar álbuns, versões ao vivo e histórias que antes não sabíamos que existiam. Nem todas as descobertas crescem dessa forma, mas todas começam com aquele pequeno impulso de carregar novamente no botão de reprodução.
É por isso que continuo a gostar das surpresas que aparecem no meio das playlists. Os algoritmos podem passar demasiado tempo a oferecer-nos versões diferentes daquilo que já ouvimos, mas, de vez em quando, deixam entrar alguém que não estava nos planos. Nesses momentos, a música volta a parecer uma estrada aberta. Não sabemos o que vem depois, e é precisamente isso que lhe dá graça.
Linda Varg chegou-me como uma desconhecida entre as luzes de Tóquio. Agora o nome já ficou. Não sei ainda até onde me levará a próxima música, mas Stranger in Tokyo cumpriu a parte mais difícil: fez-me parar, ouvir e querer saber quem estava a cantar.
Ouvir no Spotify
Linda Varg: Stranger in Tokyo
Linda Varg: a estranha em Tóquio que me encontrou
Uma voz desconhecida, um ritmo que entrou sem pedir licença e uma canção que ficou. Foi assim que Linda Varg apareceu no meu caminho.
