Penso em Desperado e começo a cantar. Basta a «Canción del Mariachi» para voltar a ver Antonio Banderas de guitarra na mão, a cantar e a tratar de quem resolveu arranjar confusão. Há músicas que ficam ligadas a um filme de tal maneira que basta começar uma para o outro aparecer inteiro.
Desperado, de Robert Rodriguez, chegou em 1995, com um mariachi à procura de vingança e um estojo de guitarra que merecia uma inspeção cuidadosa. A história tinha esse rumo, mas aquilo que me ficou foram as cenas pelo caminho. A música, as conversas, as caras, os disparates e aquela facilidade com que um encontro aparentemente banal podia acabar num tiroteio.
Lembro-me sobretudo daquele bar, quase um saloon, onde parecia acontecer tudo. Steve Buscemi entra e começa a contar a história do homem da guitarra. Vai alimentando a curiosidade, aumentando o tamanho da lenda e observando quem está à sua frente. O relato também serve para recolher informações que depois leva ao amigo. O mariachi ainda nem precisa de aparecer para já ocupar a sala toda.
Gosto dessa maneira de apresentar uma personagem através daquilo que os outros dizem dela. Ficamos a ouvir, tal como os homens do bar, à espera de perceber até onde vai a história. E quando Banderas chega, aquele espaço transforma-se num dos lugares menos aconselháveis para ir beber qualquer coisa em sossego. Há armas, garrafas, gente a saltar e uma sucessão de situações mirabolantes que fazem parte do prazer de ver o filme.
Depois aparece Quentin Tarantino, que também tem uma história para contar ao balcão. Uma piada demorada, ordinária, contada com um à-vontade que torna o ambiente ainda mais estranho. Naquele bar, até uma conversa que parece não levar a lado nenhum consegue prender-me. Fico à espera do desfecho da anedota com quase a mesma curiosidade com que espero pelo próximo confronto.
Do outro lado está Bucho, interpretado por Joaquim de Almeida. É o homem da droga, dos negócios e dos homens armados, habituado a dar ordens e a esperar que sejam cumpridas. Só que o problema da guitarra vai crescendo, os seus homens vão falhando e a autoridade começa a dar lugar à irritação. Joaquim de Almeida dá-lhe aquele ar de quem já perdeu a paciência muito antes de acabar de ouvir a explicação.
E depois há Carolina, a dona da livraria, interpretada por Salma Hayek. A beleza dela ficou-me na memória, tal como a química com Banderas, entre os cuidados com os ferimentos, a atração e aquele humor que ia aparecendo nas pequenas conversas. As vezes em que ele lhe pergunta se já agradeceu ficaram-me tanto como alguns dos tiroteios.
A livraria é outro dos lugares que associo imediatamente ao filme. E a sequência em que Carolina canta enquanto são atacados é precisamente o tipo de coisa que Desperado consegue pôr no mesmo espaço: música, sedução, perigo e uma confusão enorme. Quando os livros e o edifício começam a arder, até aquele refúgio entra no desvario.
Também me ficou o uso das guitarras no tráfico. O instrumento que o mariachi sabe tocar, e que tenta ensinar uma criança a tocar, serve a outros para esconder droga. O estojo dele transporta armas. A mesma imagem atravessa o filme com sentidos diferentes, como se naquela terra já fosse difícil olhar para uma guitarra e esperar apenas música.
Os amigos do mariachi também não aparecem de mãos vazias. Cada um traz o seu estilo de armas nos estojos, como se até num tiroteio fosse preciso distinguir os elementos da banda. Duraram pouco, é verdade. Mas aquela ajuda, tão breve e tão barulhenta, também ficou na memória.
Tudo isto vive de um exagero muito próprio. Os tiroteios têm coreografia, as personagens têm presença e o humor aparece em momentos em que uma pessoa devia estar apenas preocupada com o que vai acontecer a seguir. Rodriguez dá espaço a uma conversa absurda e, pouco depois, põe o cenário inteiro em alvoroço. É esse ritmo que me ficou, juntamente com as caras de quem o ocupa.
Desperado continua na minha coleção física. Quando penso nele, lembro-me daquele bar, da livraria, de Bucho a perder a paciência e de Banderas a voltar à questão dos agradecimentos. São essas pequenas e grandes cenas que guardo. E basta lembrar-me da guitarra para começar outra vez a cantar.
