O Rock 1 voltou a fazer das suas. Aquela gravação feita pelo meu irmão não foi apenas uma cassete com músicas escolhidas. Foi, sem sabermos, uma espécie de mapa. Algumas faixas ficaram por ali, outras abriram portas para bandas inteiras e houve ainda aquelas que atravessaram os anos sem precisarem de levar consigo uma discografia completa.
Foi assim com os Gene Loves Jezebel.
Sweet Sweet Rain e Break the Chain chegaram-me através daquela cassete, no meio de tantas outras descobertas que acabariam por marcar o meu gosto musical. Havia nas duas uma atmosfera diferente, um rock mais sombrio e elegante, uma voz impossível de confundir e qualquer coisa que parecia pertencer a uma noite longa, mesmo quando se ouvia durante o dia.
Não fui depois procurar todos os álbuns, nem percorri a história da banda como aconteceu com os Metallica ou com os Héroes del Silencio. A ligação ficou mais pequena, mas não menos verdadeira. Mais tarde juntou-se Josephina, e foram essas três músicas que permaneceram.
Às vezes temos a ideia de que gostar de uma banda obriga a conhecer todos os discos, todas as fases e todas as mudanças de formação. Não vejo as coisas assim. Há artistas que entram na nossa vida por inteiro e outros que deixam apenas algumas canções. O valor não está na quantidade, mas no lugar que essas músicas conseguem ocupar.
Os Gene Loves Jezebel ficaram comigo dessa maneira. Três temas, sem necessidade de fingir uma devoção maior do que aquela que realmente existiu. Não conheço profundamente a discografia, mas reconheço imediatamente aquelas vozes, aquelas guitarras e a sensação que regressa quando uma das músicas começa.
Talvez seja também essa a força das antigas compilações. Uma cassete como o Rock 1 não nos entregava tudo. Dava-nos apenas um fragmento e deixava o resto nas nossas mãos. Com algumas bandas, a curiosidade levava-nos a procurar os álbuns. Com outras, o fragmento bastava.
E bastar não significa ser esquecido.
Sweet Sweet Rain, Break the Chain e Josephina sobreviveram à cassete, à mudança para o CD, ao aparecimento dos ficheiros digitais e acabaram hoje guardadas na minha lista do Spotify. O suporte mudou, mas as músicas continuaram a encontrar maneira de ficar.
Há qualquer coisa de curioso nisso. O Rock 1 era uma gravação física, feita por alguém próximo, com uma ordem escolhida e um princípio e um fim. O Spotify é quase o contrário: uma biblioteca sem limites, onde tudo pode aparecer a qualquer momento. Mesmo assim, aquelas canções antigas conseguiram atravessar de um mundo para o outro.
Talvez porque não tenham ficado apenas pela música. Ficaram ligadas ao gesto do meu irmão, à descoberta feita dentro de casa e à sensação de ouvir alguma coisa pela primeira vez sem saber ainda quanto tempo nos acompanharia.
Os Gene Loves Jezebel não ocuparam uma prateleira inteira na minha vida musical. Ficaram com três lugares.
Mas continuam lá.
E isso talvez seja uma das melhores provas de que uma canção não precisa de nos levar a todos os discos para se tornar importante. Às vezes, três músicas são suficientes para atravessar décadas.
