Os Héroes del Silencio chegaram até mim através do Rock 1, aquela gravação feita pelo meu irmão que acabou por abrir várias portas dentro da música. No meio das canções apareceu Entre dos tierras e bastaram os primeiros segundos para perceber que havia ali qualquer coisa diferente.
A língua nunca foi uma barreira. Talvez até ajudasse. A voz de Enrique Bunbury tinha uma força quase teatral, as guitarras criavam uma atmosfera escura e intensa, e a música parecia avançar sempre com alguma coisa por resolver. Mesmo antes de perceber totalmente as palavras, já sentia aquilo que elas carregavam.
Entre dos tierras pertencia a Senderos de traición, e foi por aí que comecei a perceber que os Héroes del Silencio não eram apenas uma música solta numa compilação. Havia uma identidade própria, uma forma de fazer rock que não precisava de imitar as bandas anglo-saxónicas para soar grande. Cantavam em espanhol, mas a música atravessava a língua sem pedir tradução.
Aquela canção tornou-se a porta de entrada e continua a ser uma das mais fortes da banda. Percebe-se porque ficou tão conhecida. Tem um início impossível de confundir, um refrão que se agarra à memória e uma energia que não perdeu força com os anos.
O problema é que, com pena minha, a rádio parece ter guardado apenas essa.
Quando passam Héroes del Silencio, quase sabemos antecipadamente o que vamos ouvir. Entre dos tierras começa e lá está novamente a banda inteira resumida aos mesmos minutos. Não me queixo da música, porque continua a ser excelente e foi também a minha descoberta. O que me custa é tudo o que fica por tocar.
Mais tarde conheci Avalancha e percebi ainda melhor isso. Era um álbum com outra força, mais pesado, mais directo e com uma energia quase física. Não parecia uma banda a tentar repetir a fórmula da música que a tornara conhecida. Havia evolução, risco e vontade de avançar.
Para mim, Avalancha é um grande álbum. Daqueles que mostram como uma banda pode crescer sem perder a identidade que nos levou até ela. A voz continuava inconfundível, as guitarras tinham mais peso e as canções pareciam carregar uma urgência diferente. Era ainda o mesmo universo, mas com as paredes a tremer.
É uma pena que tantas bandas acabem reduzidas a uma só música. A rádio escolhe um tema, repete-o durante décadas e, sem querer, cria a impressão de que não existe mais nada para descobrir. Quem ouve apenas Entre dos tierras pode ficar satisfeito, porque encontrou uma grande canção. Mas fica sem conhecer o caminho que a rodeia e tudo o que veio depois.
Talvez também por isso as antigas compilações fossem tão importantes. Uma cassete como o Rock 1 podia dar-nos apenas uma amostra, mas essa amostra servia de convite. Não havia um algoritmo a entregar imediatamente toda a discografia. Era preciso procurar, perguntar, encontrar o álbum e perceber se aquela primeira música era uma exceção ou o início de qualquer coisa maior.
Com os Héroes del Silencio, era o início.
Volto muitas vezes a Entre dos tierras e continuo a sentir aquela entrada como na primeira vez. Mas não fico por ali. Sei que, para lá da canção que a rádio escolheu guardar, existem Senderos de traición, Avalancha e uma banda que merece muito mais do que ser recordada por um único refrão.
O Rock 1 abriu a porta. A rádio continua parada à entrada.
Eu preferi entrar.
