Da luz do mar à luz do vidro

Na Vieira de Leiria ficou o mar em duas luzes. Na Marinha Grande, o vidro, o fogo e uma oficina que já não existe.

A viagem durou dois dias e passou por vários lugares, mas esta parte do caminho ficou dividida entre a Vieira de Leiria e a Marinha Grande. À primeira ficou associada a luz do mar. À segunda, o vidro.

Cheguei à Vieira de Leiria ao fim da tarde, ainda a tempo de passear pela localidade e ver o pôr do sol na praia. Lembro-me sobretudo das casas pouco altas, fora os hotéis, claro, que se levantavam acima do resto. Essa construção mais baixa deixava a terra respirar e não fechava o horizonte.

Na praia, o areal prolongava essa sensação de espaço aberto. O mar estava calminho, sem aquela força mais agreste que tantas vezes encontramos na costa atlântica. Foi uma chegada serena, com o dia a desaparecer devagar sobre a água e sem necessidade de procurar grandes monumentos ou atrações. Às vezes, basta chegar a um lugar no momento certo.

Dormi na Vieira de Leiria e, na manhã seguinte, voltei à praia. Era o mesmo areal e o mesmo mar, mas vistos noutra luz. Na tarde anterior, o sol despedia-se sobre a água. De manhã, a praia parecia estar novamente no princípio de tudo.

Depois segui para a Marinha Grande.

Ainda dei uma volta pela cidade, embora já não consiga reconstruir as ruas por onde passei. Também não tirei fotografias durante esse passeio. As ruas ficaram fora da máquina e, com o passar do tempo, foram perdendo os nomes e os contornos. Sei que andei por ali, mas não vou agora inventar um percurso só para preencher as falhas da memória.

Aquilo que ficou bem guardado começou no Museu do Vidro.

Instalado no Palácio Stephens, antiga residência da família ligada ao desenvolvimento da indústria vidreira da Marinha Grande, o museu foi inaugurado em 1998. É o único em Portugal dedicado especificamente ao estudo da arte, do artesanato e da indústria do vidro, reunindo peças e saberes de vários séculos de produção portuguesa. 

Mais do que decorar datas, interessou-me olhar para as peças. Jarros, frascos, travessas, candeeiros, animais e objetos cuja utilidade já parecia menos importante do que a forma. Havia vidro transparente, vidro colorido, peças discretas e outras que pareciam querer ocupar a sala inteira apenas com a cor.

As vitrinas iluminadas criavam um contraste curioso com os azulejos antigos das paredes. De um lado estava o edifício, carregado de história. Do outro, peças que mostravam como uma matéria tão antiga podia continuar a ganhar formas inesperadas.

Na altura estava também patente a exposição «Olhares sobre o vidro», dedicada a Virgílio Guerra Marques, designer, criador de modelos e colecionador. A exposição reunia vidro português produzido entre meados do século XX e 2001. As minhas fotografias mostram bem aquilo que me prendeu o olhar: as cores fortes, as formas abstratas, os objetos decorativos e alguns animais que quase pareciam ter sido apanhados a meio de um movimento.

É curioso como o vidro passa despercebido na vida quotidiana. Está nas janelas, nos copos, nas garrafas, nos espelhos e em tantos objetos que usamos sem pensar neles. Por ser transparente, quase desaparece. Dentro daquele museu acontecia o contrário. O vidro obrigava-nos a olhar para ele.

Deixava de ser apenas uma matéria útil e mostrava o trabalho que existia por detrás de cada peça. O desenho, a escolha das cores, o domínio da temperatura e o gesto de quem precisava de dar uma forma precisa a algo que não podia esperar.

Depois do museu, visitei o Jasmim Glass Studio. Se no primeiro espaço tinha encontrado a história e as peças terminadas, ali pude aproximar-me do lugar onde o vidro ganhava forma.

Havia uma zona de exposição, cheia de objetos coloridos, e uma oficina com fornos, máquinas e bancadas de trabalho. Pelo que recordo, naquele momento a produção estava parada. Não cheguei a ver os artesãos a moldarem o vidro ao vivo, mas explicaram-nos o funcionamento do espaço e a maneira como as peças eram feitas.

Os detalhes técnicos dessa explicação já se perderam. Ficaram os fornos, as ferramentas, as bancadas e a sensação de estar num lugar onde o calor, o tempo e a experiência tinham de trabalhar em conjunto. Uma peça podia parecer leve e delicada quando chegava à prateleira, mas nascia num ambiente de fogo e esforço.

Hoje, ao regressar à visita através das fotografias, descubro que o Jasmim Glass Studio encerrou em 2010, sendo então referido como a última empresa de fabrico de vidro à mão na Marinha Grande. Essa informação dá outro peso às imagens que tirei naquele dia. Aquilo que fotografei não era apenas uma oficina parada durante uma visita. Era também um ofício que estava perto de perder mais um dos seus lugares.

Numa das fotografias, o meu reflexo aparece no vidro diante da oficina. Não foi certamente planeado, mas acabou por se tornar uma das imagens mais interessantes daquela passagem. Fui ali para fotografar o espaço e, sem querer, o vidro colocou-me dentro da história.

A Vieira de Leiria e a Marinha Grande acabaram por ficar ligadas na minha memória por duas formas diferentes de olhar a luz. Na Vieira, ela espalhava-se pelo areal e pelo mar calmo, primeiro ao pôr do sol e depois durante a manhã. Na Marinha Grande, atravessava o vidro, ganhava cores e ficava presa em jarros, candeeiros, animais e formas que já não precisavam de ter uma utilidade.

Não consigo dizer por que ruas passei na Marinha Grande, mas lembro-me daquilo que fui lá encontrar. E talvez seja isso que algumas viagens fazem: apagam o mapa, mas deixam acesa uma montra.

2