Zombie: a canção que ficou com duas feridas

Conheci os Bad Wolves por “Zombie”, mas há músicas que não pertencem a quem as canta. Pertencem à ferida que deixam aberta.

Há canções que chegam até nós por caminhos estranhos. Às vezes não vêm pela porta da memória, nem pela rádio certa, nem pelo álbum que toda a gente ouviu no tempo certo. Às vezes aparecem anos depois, vestidas por outra banda, com outro peso, outra voz, outra sombra. Foi assim que cheguei aos Bad Wolves, através de uma versão de “Zombie”, dos The Cranberries.

E digo “cheguei aos Bad Wolves” porque, na verdade, a canção já estava lá antes deles. “Zombie” nunca foi uma música qualquer. Tinha nascido nos anos 90, pela voz de Dolores O’Riordan, como uma resposta crua à violência, à guerra que entra pelas ruas e deixa crianças pelo chão. Não era só rock alternativo, nem apenas um refrão que ficava preso na cabeça. Era raiva. Era luto. Era uma pergunta atirada ao mundo, daquelas que continuam sem resposta mesmo depois de a música acabar.

A versão dos Bad Wolves podia ter sido apenas mais um cover pesado, daqueles que pegam numa canção conhecida, aumentam as guitarras e tentam torná-la maior à força. Mas não foi isso que aconteceu. Pelo menos, não foi assim que ela ficou na história. Dolores O’Riordan estava prevista para participar nessa gravação, mas morreu no próprio dia em que iria fazê-lo. De repente, aquela versão deixou de ser apenas uma homenagem possível e passou a carregar uma ausência real. Uma voz que devia entrar na música e já não entrou.

E talvez venha daí uma das imagens mais fortes do videoclipe: aquela figura feminina, coberta de dourado, do outro lado do vidro. Durante muito tempo, muita gente quis acreditar que era a própria Dolores. Eu também ouvi essa ideia. Faz sentido que o rumor tenha crescido, porque o vídeo é construído quase como uma aparição. A mulher dourada lembra directamente a imagem da Dolores no vídeo original dos Cranberries, mas não é ela. É representação. É homenagem. É uma presença desenhada a partir de uma ausência.

A cena do vidro acaba por dizer quase tudo sem precisar de explicar. Tommy Vext canta de um lado, a figura dourada está do outro, e entre os dois há uma distância impossível. Tentam tocar-se, mas não chegam. Fica só a marca da mão, o ouro espalhado, o gesto interrompido. E é isso que torna o vídeo mais triste do que espectacular. Não está ali uma cantora a regressar. Está ali o lugar vazio onde ela devia ter estado.

Talvez seja por isso que este cover resulta melhor quando não tentamos compará-lo demasiado ao original. A versão dos The Cranberries continua a ser a casa da canção. Tem aquela voz que parece partir e resistir ao mesmo tempo, com uma fragilidade feroz que ninguém consegue imitar. Os Bad Wolves não substituem isso. Não podiam. O que fazem é outra coisa: levantam uma espécie de memorial sonoro, mais pesado, mais metálico, mais directo, como se a música tivesse ganho uma segunda camada de perda.

Há covers que querem roubar o lugar ao original. Este não me parece um desses. Parece antes uma porta lateral. Entras pelos Bad Wolves, mas acabas por voltar a Dolores. Voltas à voz dela, à Irlanda, aos anos 90, àquele refrão que todos conhecemos e que, afinal, nunca foi apenas um refrão. Voltas também à imagem dourada atrás do vidro, não como prova de um rumor, mas como símbolo de uma coisa mais simples e mais dura: às vezes a música continua, mas a voz que esperávamos já não chega.

“Zombie” dói. Doía antes. Doeu mais depois. E talvez seja essa a estranha força desta versão dos Bad Wolves: lembrar-nos que uma canção pode sobreviver ao tempo, aos músicos, às bandas e até à morte, mas nunca sai ilesa de nada disso.

2