Há músicos que acabamos por associar a um lugar. Podemos ouvi-los durante anos na rádio, reconhecer-lhes a voz, saber as canções, mas um concerto dá-lhes outra presença na nossa memória. Para mim, Jorge Palma também é um fim de tarde na Zambujeira do Mar. Vi-o no largo, ao pôr do sol, por altura das 7 Maravilhas, e ficou a recordação de um concerto muito bom. Hoje, depois da notícia da sua morte, apetece-me começar por aí.
Jorge Palma morreu na noite de 21 de setembro, aos 76 anos. Escrever esta frase custa, porque há vozes a que nos habituamos de tal maneira que parecem fazer parte das coisas certas deste país. Entre tantas mudanças, sabemos que podemos voltar a uma canção e encontrar alguém que reconhecemos. A morte interrompe essa presença nos palcos, deixa concertos por acontecer e músicas por escrever. O que já nos deu continua disponível, mas hoje ouve-se com outro peso.
Havia qualquer coisa de muito próxima na maneira como cantava. A voz tinha uma aspereza própria e as palavras pareciam trazer a experiência de quem conhecia bem as dúvidas, os amores e os desencontros sobre os quais escrevia. O piano dava espaço a essa conversa, acompanhava-a, por vezes tomava a dianteira. Em «Só», editado em 1991, a voz e o piano bastaram para revisitar canções que já traziam anos de vida. É um daqueles encontros entre um músico e o seu instrumento em que vale a pena prestar atenção a ambos.
«Frágil», «Deixa-me Rir», «Bairro do Amor», «Estrela do Mar» ou «Encosta-te a Mim» são títulos que ajudam a perceber a dimensão do que deixa. Cada canção abre uma porta diferente: há ternura, inquietação, ironia, vontade de ficar e vontade de sair. A sua música conseguia acolher sentimentos contraditórios sem os arrumar à força. Talvez por isso seja tão fácil reconhecer ali alguma coisa nossa, mesmo quando as histórias são outras.
Também havia rock naquela maneira de estar na música. A formação ao piano conviveu com a guitarra, com a passagem pelas ruas da Europa e com projetos partilhados, como os Palma’s Gang, os Rio Grande e os Cabeças no Ar. Esse percurso ouve-se na variedade das canções e na liberdade com que se aproximava delas. Podia haver delicadeza e, logo a seguir, uma energia mais solta, uma palavra que picava, um sorriso no meio da melancolia.
Ao recordá-lo, volto ao largo da Zambujeira e àquele concerto ao pôr do sol. É a parte desta história que posso contar na primeira pessoa: estive ali, ouvi-o e gostei muito. A música tem esta capacidade de guardar um lugar connosco. Anos depois, o nome de quem estava no palco ainda nos leva até lá.
Hoje fica esta homenagem no Caderno, com vontade de voltar a ouvi-lo. Talvez seja essa a melhor companhia para a despedida: escolher uma canção e deixá-la tocar até ao fim, dando atenção à voz, ao piano e às palavras. Na minha memória, Jorge Palma terá sempre aquele fim de tarde na Zambujeira, quando ainda havia um concerto a acontecer.
