A minha ex diria, provavelmente, que foi o amor. Eu continuo a dizer que foi a voz.
Estávamos num karaoke quando ela escolheu I Have Nothing. A música começou, ela cantou e eu fiquei de tal maneira boquiaberto que acabei literalmente sentado no chão. Não é uma forma de dizer. Caí mesmo de cu.
Na altura, talvez houvesse um pouco das duas coisas. O amor ajuda-nos a ouvir alguém de outra maneira, mas seria injusto atribuir-lhe todo o mérito. Ela tinha poder naquela voz. Tinha mesmo. E escolheu precisamente uma canção que não permite esconder grande coisa. I Have Nothing começa por pedir contenção, mas vai crescendo até exigir tudo de quem a canta.
Talvez por isso a memória tenha ficado tão nítida. Não me recordo apenas da canção. Recordo o espanto, a surpresa e aquela sensação de estar a ouvir alguém conhecido revelar uma dimensão que eu ainda não tinha visto. Há momentos em que uma voz muda a forma como olhamos para quem está diante de nós. Naquela noite, mudou também a minha posição física, porque acabei no chão.
A canção pertencia a Whitney Houston, mas durante aqueles minutos ficou ligada a outra pessoa e a um momento muito meu. É isso que a música faz tantas vezes: sai do disco, afasta-se de quem a tornou famosa e instala-se numa memória onde passa a pertencer também a nós.
Whitney já tinha entrado na minha vida através de O Guarda-Costas. O filme e as suas músicas eram praticamente inseparáveis. Podíamos discutir a história, as personagens ou o romance, mas quando a voz dela surgia, tudo parecia ganhar outra dimensão.
I Will Always Love You tornou-se maior do que o próprio filme. Bastavam as primeiras palavras, cantadas quase sem acompanhamento, para se criar um silêncio em redor. Depois a música crescia e a voz também, até parecer capaz de ocupar uma sala inteira. Mas não era apenas uma questão de volume ou de alcançar notas difíceis. Havia emoção, fragilidade e uma força que nunca parecia vazia.
I Have Nothing tinha essa mesma capacidade. Era uma canção enorme, mas Whitney não se perdia dentro dela. Pelo contrário, parecia controlar cada subida, cada pausa e cada explosão, fazendo parecer natural aquilo que estava muito longe de ser simples.
Esse era, para mim, o verdadeiro poder da voz dela. Não precisava de entrar sempre em força para mostrar que estava ali. Podia começar quase próxima, como se cantasse apenas para uma pessoa, e pouco depois fazer-nos sentir que o espaço já não chegava para tudo o que saía daquela voz.
Havia cantores que interpretavam uma música. Whitney parecia atravessá-la.
Também se contava que gostava de Portugal e que passava algumas temporadas na Ilha de Faro. Nunca soube até que ponto essa história estava documentada ou se pertencia àquelas memórias que circulam entre quem vive nos lugares. Mas gosto de imaginar aquela voz enorme a encontrar descanso junto da Ria Formosa, longe dos palcos, dos flashes e da pressão de ter de corresponder sempre à imagem que o mundo construíra.
Porque uma voz assim também podia tornar-se uma prisão. Quando alguém canta daquela maneira, o público passa a esperar sempre o impossível. Cada atuação tem de confirmar o mito, cada nota é comparada com a anterior e cada fragilidade deixa de pertencer apenas à pessoa para se transformar em notícia.
Por detrás daquela potência existia alguém que não teve uma vida simples. Mas não quero que a história termine apenas nas quedas, nos problemas ou no fim trágico. Isso seria deixar que os últimos capítulos apagassem tudo o que veio antes.
Prefiro voltar à música.
Voltar às canções de O Guarda-Costas, à forma como ela entrava numa melodia e a tornava sua, ao silêncio que antecedia os grandes momentos e àquele poder raro de fazer uma voz parecer simultaneamente maior do que o mundo e próxima de quem a escutava.
E volto também àquela noite de karaoke. À minha ex a cantar I Have Nothing, a mim completamente boquiaberto e ao chão que, por breves segundos, acabou por ser o único lugar onde consegui ficar.
Ela diria que foi o amor. Talvez tivesse alguma razão. Mas eu ouvi aquela voz. E sei bem o poder que ela tinha.
