Tarja: entrei pelo Tango e fiquei para o álbum inteiro

Entrei pelo «Tango» e fiquei para o álbum inteiro. O reencontro com Tarja em Frisson Noir acabou com a playlist de portas abertas.

Lembram-se da Tarja? Sim, aquela voz dos Nightwish de há uns anos, que parecia capaz de levantar uma catedral por cima das guitarras. Depois da saída da banda, continuou a solo, e eu fui ouvindo uma música aqui, outra ali. Nunca lhe perdi o rasto, até porque há encontros que ficam no ouvido, como aquele com os Scorpions em «The Good Die Young». Mas faltava-me parar e dar a um álbum seu a atenção que, pelos vistos, já devia ter dado há mais tempo.

Aconteceu agora, quase por acaso. Encontrei no YouTube «Tango», com os Apocalyptica, e fui atrás. Há combinações que despertam logo a curiosidade, e juntar aquela voz aos violoncelos deles era motivo suficiente para carregar no botão. Gostei, guardei a música na playlist e resolvi espreitar o resto de Frisson Noir. A intenção era essa, espreitar. Acabei por ficar até ao fim.

Quem me conhece sabe que tenho uma queda para o rock, sobretudo quando o peso das guitarras encontra uma boa melodia e alguma sombra pelo caminho. Gosto de músicas que tenham espaço para crescer, de vozes com personalidade, daquela intensidade que nos faz prestar atenção mesmo quando começámos a ouvir enquanto fazíamos outra coisa. E esta audição foi tomando conta do meu fim de tarde, uma faixa de cada vez.

«Frisson Noir», «The Eternal Return» e «Leap of Faith» foram-se juntando a «Tango» na playlist. Nesta última das três, apareceu um nome conhecido: Marko Hietala. O mesmo Marko cuja voz se cruzava com a de Tarja nos Nightwish, agora novamente ao lado dela. Tinha estado a ver um vídeo sobre a história da banda e as saídas dos seus integrantes, por isso encontrar aquele nome ali trouxe também à memória tudo o que tinha acabado de ouvir sobre os bastidores.

É curioso como uma canção consegue carregar esse contexto sem precisarmos de ficar presos a ele. Reconhecemos as pessoas, lembramo-nos do passado, mas entretanto a música continua e pede-nos atenção ao que está a acontecer agora. E eu estava a gostar demasiado do álbum para ficar a morar nas antigas zangas dos Nightwish. Tarja tinha mais para me mostrar.

Vieram «At Sea» e «Blaze Forever». Mais duas guardadas. A essa altura, já metade tinha encontrado lugar na playlist e eu começava a perceber que aquela curiosidade inicial estava a dar um resultado pouco habitual. Normalmente, há duas ou três músicas que sobressaem numa primeira audição. Outras precisam de tempo, de um dia diferente ou de voltarmos a elas sem pressa. Aqui, estava constantemente a encontrar mais uma que queria levar comigo.

Depois entraram «Anemoia» e «I Don’t Care», e a contagem começou a perder utilidade. Ainda tentei fazê-la, como quem vai escolhendo os melhores pedaços, até perceber que estava praticamente a trazer tudo. Pelo meio, fui ouvir outras coisas no YouTube, mas voltei ao álbum. Havia ali qualquer coisa por acabar, e queria saber o que vinha a seguir.

Não tenho uma explicação técnica para cada uma destas escolhas. Não estive a avaliar a execução dos instrumentos nem a medir o alcance daquela voz. Estive a ouvir música, que às vezes é uma coisa bem mais simples do que aquilo que tentamos escrever sobre ela. Gostei, quis voltar a ouvir e guardei. Repetidamente.

Também me agradou reconhecer a Tarja sem sentir que estava apenas a revisitar a cantora que conheci nos Nightwish. Essa ligação existe e fará sempre parte da forma como cheguei até ela. Mas, ao fim desta audição, a conversa já era sobre este álbum e sobre a vontade de o repetir. O passado tinha servido para abrir a porta. O que estava a tocar chegava perfeitamente para me manter lá dentro.

No fim, considerei o pleno. A entrada e a saída cumpriam o seu papel de abrir e fechar o disco; pelo meio, as músicas tinham conquistado o seu lugar na playlist. Não foi uma decisão tomada de uma vez, foi acontecendo ao longo da audição, até deixar de haver grande coisa para escolher.

Fui ao YouTube, encontrei um tango e acabei com um álbum inteiro para voltar a ouvir. Há fins de tarde que ficam muito bem assim.

Youtube: Tarja Turunen + Apocalíptica - Tango

Spotify: Tarja Turunen + Apocalíptica - Tango

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