The Orville, uma nave cheia de memória

Em três temporadas, The Orville deixou de ser apenas uma comédia espacial e tornou-se um universo de povos, feridas, escolhas e memória.

Quando comecei a ver The Orville, pensei que ia encontrar uma série leve, com naves, humor e aquela vontade assumida de brincar com a velha ficção científica. E encontrei tudo isso. Mas, episódio após episódio, a série foi deixando cair a máscara da comédia e mostrou que tinha muito mais para dizer.

Ao fim das três temporadas, fiquei com a sensação de ter acompanhado uma nave que não andava apenas pelo espaço. A Orville ia atravessando mundos, povos e conflitos, mas levava sempre consigo aquilo que tinha acontecido antes. Os episódios contam histórias próprias, com princípio e fim, mas as decisões não desaparecem quando chegam os créditos. Ficam dentro das personagens e regressam mais tarde, às vezes com muito mais peso.

Foi isso que mais gostei na série. Não é uma história esticada durante dezenas de episódios, mas também não é uma coleção de aventuras sem memória. Cada paragem acrescenta qualquer coisa ao caminho.

Os Moclans são talvez o exemplo mais forte. No início surgem como aliados importantes da União Planetária, respeitados pela força militar e pela produção de armamento. A sua sociedade, composta quase apenas por machos, parece primeiro uma estranheza cultural. Depois nasce Topa e aquilo deixa de ser apenas uma diferença entre povos.

A cirurgia imposta a Topa torna-se uma ferida que atravessa as três temporadas. Muda Bortus, afasta Klyden, envolve Kelly e acaba por obrigar a própria União a olhar para aquilo que durante demasiado tempo preferiu tolerar.

Mais tarde descobrimos que existem mulheres Moclans escondidas, protegidas por Haveena. O que parecia uma exceção revela-se um apagamento antigo. Topa cresce sem compreender completamente quem é, recupera a sua identidade e acaba raptada e torturada pelo próprio povo.

A partir daí, já não há diplomacia que consiga esconder a violência atrás da palavra tradição.

Moclus acaba expulso da União, mas não acredito que isso resolva verdadeiramente aquela sociedade. Ficam os tradicionalistas, agarrados ao mundo que conhecem, e ficam aqueles que já não conseguem aceitar o silêncio. Mesmo que um dia voltem a reunir-se, haverá sempre duas facções e uma ferida entre elas.

Klyden representa bem essa contradição. Durante muito tempo repete tudo aquilo que Moclus lhe ensinou. Depois regressa à filha. Não muda um planeta inteiro, mas muda uma casa. E às vezes é aí que tudo começa.

As Janisi aparecem quase como o reflexo contrário dos Moclans. Na sua sociedade são as mulheres que mandam e os homens ocupam o lugar inferior. A inversão não torna aquele mundo mais justo. Apenas muda quem exerce o poder.

Gostei dessa forma de a série colocar uma sociedade diante da outra. Não para dizer que os extremos se anulam, mas para mostrar que a opressão continua a ser opressão, venha de que lado vier.

Os Krill entram na história com outra força. São um povo profundamente religioso, guiado por Avis e convencido de que os restantes seres não possuem o mesmo valor. No início parecem apenas inimigos de pele branca, fechados numa fé que não admite dúvidas.

Depois aparece Teleya. A relação entre ela e Ed Mercer abre uma fenda nessa imagem simples. Durante algum tempo parece possível imaginar uma aproximação entre os Krill e a União. Mas Teleya regressa ao seu mundo, conquista o poder e escolhe o caminho contrário.

Anaya, a filha escondida dos dois, torna tudo ainda mais pesado. Ela existe entre dois povos que não estão preparados para a aceitar. A guerra deixa de ser apenas política ou religiosa. Passa também por duas pessoas que se aproximaram, se separaram e deixaram uma criança presa entre as escolhas de ambos.

Os Kaylon foram provavelmente a parte que mais me surpreendeu. Isaac entra na Orville como observador. É uma máquina enviada para estudar os seres biológicos, distante, lógico e quase sempre incapaz de compreender aquilo que não pode medir. Aos poucos começa a fazer parte da tripulação e, sobretudo, da família de Claire.

Quando se revela o verdadeiro plano dos Kaylon, tudo aquilo que tinha sido construído desaba.

Descobrimos que foram criados como servos, maltratados e torturados pelos seus construtores. Libertaram-se, exterminaram-nos e acabaram por concluir que toda a vida biológica representava a mesma ameaça. Foram vítimas, tornaram-se carrascos e passaram a olhar para o universo inteiro através da ferida que carregavam.

Isaac quebra essa lógica quando escolhe a Orville. Não deixa de ser Kaylon nem passa de repente a sentir como os outros. Continua a ser ele. Mas começa a reconhecer valor nas ligações que criou, mesmo sem as compreender da mesma maneira.

Os Kaylon funcionam quase como uma colónia, um formigueiro tecnológico em que cada unidade pertence a um conjunto maior. Isaac, porém, mostra que dentro desse colectivo ainda pode nascer uma escolha individual.

Mais tarde, a União e os Kaylon acabam por combater do mesmo lado. A paz não apaga a guerra, nem desfaz o que aconteceu, mas muda o rumo das duas sociedades. O sacrifício de Charly Burke pesa nessa mudança, porque obriga os Kaylon a reconhecer que os seres biológicos não são todos iguais aos seus antigos opressores.

E no meio de tudo isto está a própria União Planetária. A União apresenta-se como aberta, tolerante e civilizada, mas também ela vai cedendo quando a política começa a pesar mais do que os princípios. Tolera Moclus durante demasiado tempo porque precisa das suas armas. Hesita perante injustiças enquanto ainda consegue escondê-las atrás da diplomacia. Só rompe quando já não consegue continuar a olhar para o lado.

Isso tornou a série mais interessante para mim. Nenhum povo fica preso numa divisão simples entre bons e maus. Os Moclans são aliados e opressores. Os Kaylon são vítimas e exterminadores. Os Krill vivem agarrados a uma fé que também lhes serve de arma. A União defende valores que nem sempre tem coragem de cumprir.

Talvez seja por isso que The Orville foi crescendo comigo ao longo das três temporadas. Começou como uma série que parecia querer apenas fazer rir e acabou a falar de identidade, fé, género, memória, medo e poder.

E fez isso sem abandonar as histórias episódicas de que tanto gostei. Em cada episódio havia um novo mundo, um problema diferente ou uma cultura inesperada. Mas a nave não regressava ao mesmo ponto. As personagens mudavam, as relações acumulavam marcas e cada escolha deixava qualquer coisa para trás.

Quando terminei a terceira temporada, não senti que a história tivesse acabado. Senti apenas que a Orville tinha parado por algum tempo.

Ficaram os Moclans divididos entre aquilo que sempre foram e aquilo que ainda podem vir a ser. Ficaram os Krill presos entre a fé, a guerra e Anaya. Ficaram os Kaylon a tentar viver ao lado daqueles que antes queriam destruir. E ficou a União a descobrir que os seus princípios só valem verdadeiramente quando obrigam a escolher.

Há ainda muito por contar. Mas mesmo que a nave não volte a levantar voo, estas três temporadas já deixaram um universo com memória. Um espaço cheio de povos que se observam, se temem, se ferem e, por vezes, conseguem aproximar-se.

Talvez seja isso que mais ficou comigo. The Orville levou-me para mundos distantes, mas as perguntas que trouxe de volta nunca estiveram assim tão longe.

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