Trinta filmes, uma só voz

Paramount e Warner prometem trinta filmes por ano. Mas juntar dois gigantes não garante melhores histórias, mais diversidade ou salas cheias.

Na semana passada escrevi que o público não se cansou do cinema. Cansou-se de histórias preguiçosas, sequelas feitas por obrigação e filmes que parecem aprovados por uma sala cheia de executivos antes de alguém se lembrar de escrever um bom argumento.

Agora Hollywood prepara-se para responder aos seus problemas da forma habitual: juntando dois gigantes para criar um ainda maior.

A Paramount Skydance chegou a acordo para comprar a Warner Bros. Discovery por cerca de 110 mil milhões de dólares. Se o negócio avançar, ficarão debaixo do mesmo teto a Paramount, a CBS, a Nickelodeon, a Showtime, a Warner Bros., a HBO, a DC, a CNN, o Cartoon Network e um catálogo quase impossível de resumir.

Também ficarão juntas sagas como Star Trek, Missão: Impossível, Harry Potter, Matrix e todo o universo da DC. Para quem gosta de cinema e televisão, a lista impressiona. Para quem olha para a concentração crescente dos grandes estúdios, também assusta um pouco.

David Ellison garante que esta união permitirá produzir mais e reforçar a presença dos filmes nas salas. Uma das promessas mais repetidas é o lançamento de pelo menos trinta filmes por ano.

É importante dizer que essa promessa não apareceu por causa da oposição dos doze estados norte-americanos que tentam travar o negócio. Já fazia parte da defesa da compra e daquilo que a Paramount apresentava como futuro dos dois estúdios. Com o processo judicial, passou também a ser utilizada como prova de que a união não diminuirá a produção cinematográfica.

Trinta filmes por ano parece uma boa notícia. São mais estreias, mais trabalho e, teoricamente, mais razões para manter as salas abertas. O problema é que um número nada diz sobre as histórias que serão contadas.

Um estúdio pode lançar trinta filmes diferentes ou repetir a mesma fórmula trinta vezes. Pode dar espaço a realizadores, argumentistas e novas ideias ou limitar-se a percorrer o catálogo à procura da próxima sequela, reinício ou personagem esquecida que ainda possa render algum dinheiro.

O cinema não melhora apenas porque a linha de montagem acelera.

Os Ellison falam em recuperar a força da Paramount e já colocaram Star Trek entre as prioridades. Nunca foi uma saga que me puxasse verdadeiramente, apesar da sua importância e de ser quase tão antiga quanto a própria ideia de grandes universos de ficção científica na televisão. Ainda assim, tenho curiosidade em perceber o que pretendem fazer com ela.

Revitalizar uma saga, porém, não significa apenas voltar a colocar o nome nos cartazes. É preciso perceber por que razão aquela história conquistou o público, respeitar aquilo que veio antes e encontrar algo novo para acrescentar. Caso contrário, temos apenas mais um produto a ocupar uma data no calendário.

Quando olho para a Paramount atual e encontro títulos como Gritos 7 entre os seus lançamentos mais visíveis, não fico imediatamente convencido de que a solução esteja em produzir ainda mais. Nada tenho contra a existência de um sétimo filme de uma saga, desde que haja uma história que justifique esse regresso. O número depois do título não é o problema. O problema começa quando o número passa a ser a única ideia.

A Warner também não chega a este negócio sem problemas. Tem algumas das marcas mais conhecidas do mundo, mas nem sempre soube o que fazer com elas. Vimos isso na DC, em vários projetos que começaram a ser abandonados antes de chegarem às salas, e em filmes feitos dentro de universos que mudavam de direção enquanto ainda estavam a ser construídos.

Juntar os dois estúdios pode dar-lhes mais força financeira. Também pode criar mais confusão, mais níveis de aprovação e uma estrutura ainda mais preocupada com relatórios do que com histórias.

É precisamente esse receio que está por detrás do processo apresentado pela Califórnia e por outros onze estados. Segundo esses estados, a compra poderá reduzir a concorrência na distribuição de filmes e na televisão, aumentar os preços e deixar trabalhadores, salas de cinema e público com menos escolhas.

A Paramount responde que recebeu autorização das autoridades de concorrência em quase setenta mercados e que precisa desta dimensão para competir com empresas como a Disney, a Netflix, a Amazon e o YouTube. É um argumento que tem algum sentido. Os antigos estúdios já não concorrem apenas uns com os outros. Disputam o nosso tempo com plataformas, redes sociais e empresas tecnológicas muito maiores.

Mas combater gigantes criando outro gigante não elimina o problema da concentração. Apenas acrescenta mais um nome à mesa.

O processo deverá ser julgado em março de 2027. A Paramount aceitou não concluir a compra antes de uma decisão judicial ou de junho desse ano, consoante o que acontecer primeiro. Esse atraso também tem um preço. O acordo prevê uma compensação diária aos acionistas da Warner depois de 30 de setembro, que poderá atingir cerca de 1,7 mil milhões de dólares se a espera continuar até ao próximo verão.

Não são propriamente royalties. É dinheiro pago porque o relógio continua a correr enquanto o negócio permanece suspenso.

Esta situação faz lembrar a compra de grande parte da 21st Century Fox pela Disney. A Disney não comprou toda a Fox. Os canais de notícias, a rede de televisão e parte dos negócios desportivos ficaram numa empresa separada. O que comprou foram os estúdios de cinema e televisão, vários canais de entretenimento e uma enorme biblioteca de filmes e séries.

Os logótipos não desapareceram todos. A 20th Century Studios continua a existir. Mas passou a viver debaixo do mesmo guarda-chuva da Disney, juntamente com a Marvel, a Lucasfilm, a Pixar e muitas outras marcas.

É isso que pode voltar a acontecer agora numa escala diferente. A Paramount e a Warner poderão conservar os nomes, os estúdios e até equipas separadas. Contudo, por cima de tudo isso estará uma única estrutura empresarial a decidir orçamentos, prioridades, cortes e quais os projetos que merecem avançar.

Um catálogo maior não significa necessariamente maior diversidade. Às vezes significa apenas que existem mais personagens à disposição do mesmo comité.

Não sou contra este negócio apenas por ser grande. Se os Ellison cumprirem o que prometem, protegerem as salas de cinema, devolverem força à Paramount, respeitarem a identidade da Warner e derem liberdade a quem cria, poderá sair daqui alguma coisa boa.

Mas não basta prometer trinta filmes por ano. É preciso garantir que esses trinta filmes não parecem ter sido feitos pela mesma voz, com o mesmo molde e para o mesmo público imaginário inventado por uma folha de cálculo.

Os estúdios continuam convencidos de que o futuro do cinema depende da quantidade de conteúdos que conseguem produzir. Continuo a pensar que depende das histórias que conseguem contar.

Trinta filmes podem preencher um calendário. Só boas histórias conseguem encher as salas.

1