Não sei quantas vezes já vi Armageddon. Vi-o no cinema quando estreou, tornou-se um dos meus filmes preferidos e nunca deixou de o ser. A última vez que o revi foi há quatro ou cinco meses, mas poderia sentar-me hoje novamente diante do ecrã e acompanhar tudo como se não soubesse o que vai acontecer.
Sei, claro. Sei quase de cor.
Ainda o filme mal começou e A.J. já está metido em sarilhos. Primeiro, por ter decidido abrir um poço de petróleo contra as ordens de Harry, porque os instrumentos estavam avariados e o seu instinto lhe dizia que era possível. Depois, porque Harry o encontra na cama com Grace, com quem ele se encontrava às escondidas. Segue-se uma perseguição pela plataforma petrolífera, com Harry aos tiros e A.J. a tentar conservar os membros todos no lugar.
Logo aí está definida a relação entre os dois. A.J. é talentoso, impulsivo e incapaz de obedecer quando acredita que tem razão. Harry fica desesperado com ele, talvez porque reconheça demasiado bem aquela teimosia. Além disso, tinha prometido ao pai de A.J., antes de este morrer, que cuidaria do rapaz. A relação entre ambos já era quase a de pai e filho, embora nenhum deles soubesse falar sobre isso sem transformar o momento numa discussão.
Entretanto, há um asteroide a caminho da Terra e a NASA tenta encontrar uma solução. Surgem ideias tão desesperadas como um enorme lençol prateado que apanharia o vento solar. Truman ouve aquilo tudo até exigir uma resposta que possa realmente funcionar. A solução encontrada é perfurar o asteroide, colocar uma ogiva nuclear no interior e dividi-lo antes que atravesse o ponto sem retorno.
É então que chamam Harry Stamper, o melhor perfurador que conseguem encontrar. A NASA queria que ele ensinasse astronautas a perfurar em poucos dias, mas Harry percebe imediatamente o absurdo. Aquilo não se aprende num curso rápido. Se querem mesmo salvar o mundo, terão de mandar para o espaço quem passou a vida inteira a trabalhar com brocas, tubos, pressão e terrenos impossíveis.
Harry aceita, mas escolhe os seus homens. E isso significa voltar a procurar A.J.
A conversa entre os dois é uma das muitas de que ainda me lembro. A.J. tenta obrigá-lo a pedir desculpa e a admitir que precisa dele. Harry responde que não existe nenhum trabalho no planeta em que queira trabalhar com A.J. O pormenor está precisamente em “no planeta”: desta vez, o trabalho será fora dele.
Quando Grace pergunta por que razão escolheu A.J. se diz que não confia nele, Harry devolve-lhe a pergunta: não era ela que confiava? Por detrás da desaprovação do pai já estava o reconhecimento de que A.J. era um dos melhores. Harry podia não o querer como namorado da filha, mas queria-o ao seu lado quando o mundo precisava de ser salvo.
A equipa aceita a missão, embora aproveite para apresentar algumas exigências. Há multas de estacionamento para apagar, pedidos de cidadania, cassetes de oito pistas, férias no Caesars Palace, uma temporada na Casa Branca e a condição de nunca mais pagarem impostos. Pelo meio, Harry ainda pergunta, como quem não quer a coisa, se o Governo sabe realmente quem matou Kennedy. O silêncio serve de resposta e ele avança para o pedido seguinte.
Os testes na NASA mostram que aqueles homens não foram feitos para ser astronautas. Não passam propriamente com distinção, mas seguem na missão porque sabem fazer aquilo que ninguém mais sabe. O coronel Sharp olha para eles como um dos maiores erros da história da NASA. Mais tarde, será precisamente ele a reconhecer o verdadeiro valor de Harry.
Antes da partida, Harry exige que lhes deem algumas horas de liberdade. Não está a pedir; está a mandar. Aquela pode ser a última noite deles na Terra e os homens precisam de sair, espairecer e derreter alguns trocos.
A.J. passa a noite com Grace. Chick aproxima-se do filho, mesmo sem lhe poder explicar o que vai fazer. Rockhound pede cem mil dólares a um agiota, convencido de que o mundo vai acabar e nunca terá de os devolver, e estoura o dinheiro com mulheres. Se o plano resultar, salvará o planeta, mas ficará com um problema sério para resolver quando regressar.
No caminho para os vaivéns, A.J. canta Leaving on a Jet Plane para Grace e os outros acompanham-no. Harry comenta que aquele rapaz não leva nada a sério. Chick responde que A.J. lhe faz lembrar alguém que conheceu. A referência a um Harry mais novo é impossível de ignorar.
A missão começa e a primeira paragem é a estação espacial russa, onde conhecem Lev Andropov. O objetivo era apenas reabastecer, mas uma fuga de combustível transforma tudo num incêndio. A estação vai com os porcos e A.J. e Lev ficam presos no interior, quase guisados, enquanto o fogo avança atrás deles. Conseguem escapar no último instante e os vaivéns seguem viagem com combustível suficiente e um cosmonauta extra.
Lev passa a fazer parte daquela família improvisada, sempre pronto a recordar que na Rússia é um homem muito importante.
A chegada ao asteroide confirma que aquela pedra não gosta deles. O Independence, onde seguem A.J., Bear e Lev, é atingido e despenha-se. Eles sobrevivem, mas ficam separados da equipa e são dados como mortos. O Freedom também falha a zona prevista e aterra cerca de 26 milhas ao lado, numa grelha formada por ferrite de ferro comprimida.
Rockhound percebe imediatamente onde estão, apesar dos instrumentos avariados, e explica a sua conclusão com a simplicidade habitual: é um génio. Depois garante que a camada de ferro não terá mais de cinquenta pés. Como sabe? Porque, se tiver, estão lixados.
Claro que a perfuração corre mal.
As brocas começam a ceder, a transmissão bloqueia e o trabalho quase não avança. Na Terra, o Presidente perde a confiança no plano e ordena que a ogiva seja detonada à distância, mesmo sem estar dentro do buraco. Truman tenta ganhar tempo, enquanto Grace fica furiosa ao descobrir que tomaram aquela decisão sem sequer avisar os homens. Para os responsáveis, são números num ecrã; para ela, é o pai que está lá em cima.
No asteroide, Harry enfrenta Sharp e conseguem interromper a contagem a apenas três segundos da detonação. Retomam o trabalho, mas a pressão começa também a afetar Rockhound. Depois de já se ter sentado em cima da ogiva como um cowboy, descobre a metralhadora do Armadillo e começa a disparar contra o asteroide. O diagnóstico é simples: demência espacial.
Pouco depois, uma bolsa de gás rebenta e leva Max e o primeiro Armadillo. A NASA prepara-se para anunciar o fracasso da missão. Parece ter acabado tudo.
Mas A.J., Bear e Lev continuam vivos.
Para chegarem à equipa de Harry, têm de atravessar um desfiladeiro no segundo Armadillo. A.J. pergunta a Lev se conhece Evel Knievel e o russo responde que nunca viu Star Wars. O salto quase os deixa a flutuar para sempre no espaço, até Lev sair da máquina e resolver o problema à sua maneira.
Quando já ninguém acredita numa saída, o segundo Armadillo aparece. A.J. pergunta a Harry se teve saudades dele. Harry anuncia que tem cinco palavras para lhe dizer, mas usa seis para revelar como está contente por o ver. É uma pequena resposta à conversa em que A.J. lhe queria arrancar cinco palavras de afeto.
Com uma última máquina e uma última broca, voltam ao trabalho. A pressão aumenta e Harry quer parar, mas A.J. pede-lhe que confie nele uma única vez. Harry confia. Depois de muito esforço, chegam finalmente aos 800 pés necessários.
Começam a retirar o material para colocar a ogiva no buraco, mas o asteroide volta a fazer das suas. Uma nova tempestade danifica o detonador remoto. Agora, alguém terá de ficar para trás e carregar manualmente no botão.
Tiram à sorte e calha a A.J.
Harry oferece-se para o acompanhar até à ogiva, mas, chegados lá, empurra-o para o elevador e manda-o regressar. A.J. protesta. Não é justo, aquela era a sua responsabilidade. Harry responde-lhe que agora tem outro trabalho: voltar para Grace e cuidar dela.
Finalmente, diz-lhe aquilo que nunca conseguira dizer. Sempre o viu como um filho e teria orgulho em vê-lo casar com Grace. A.J. sobe enquanto lhe grita que o ama. Quando regressa sozinho, os outros ficam pasmados. Percebem que aquele homem louco e teimoso decidiu ficar no lugar dele.
Depois vem a cena que me destrói sempre.
Harry fala com Grace pela última vez e admite que não conseguirá cumprir a promessa de voltar. Ela diz-lhe que também mentiu quando afirmou que não queria ser como ele. Na verdade, ela é como o pai, e tudo o que tem de bom veio dele.
Harry conta-lhe que A.J. os salvou, pede-lhe que cuide dele e lamenta não poder acompanhá-la no dia do casamento. Promete apenas que continuará a olhar por ela. Depois despedem-se, ambos a tentar prolongar uma conversa que já não pode ser prolongada.
Eu sei que a cena vem aí. Sei as palavras, conheço os silêncios e já vi aquele momento vezes sem conta.
Não interessa.
Mesmo enquanto escrevo estas palavras, voltam-me as lágrimas aos olhos, caraças. Sei perfeitamente como termina, mas nunca aprendi a defender-me daquela despedida.
Eu choro naquele filme, pá.
Ainda falta um último problema. O Freedom não consegue arrancar e a astronauta Watts tenta resolver a avaria. Lev aparece, olha para o equipamento e resume a engenharia espacial mundial: “American components, Russian components… all made in Taiwan.”
Depois começa a bater nos instrumentos, porque era assim que resolviam os problemas na estação russa e ele não quer ficar naquele asteroide. O método científico de Lev funciona. Os motores arrancam e o vaivém consegue afastar-se.
Só então Harry carrega no botão.
Harry não sabe falhar. Essa ideia acompanha-o desde o início: avançar sempre, nunca desistir. Ferido e sozinho, cumpre o trabalho até ao fim e deixa a última frase para a filha: “Ganhámos, Gracie.”
Os sobreviventes regressam à Terra como heróis. Chick pode finalmente abraçar o filho. As mulheres aparecem para receber Rockhound, que terá agora de explicar ao agiota como gastou cem mil dólares e sobreviveu para os devolver. A.J. entrega a Truman a lembrança deixada por Harry.
Sharp aproxima-se de Grace e pede autorização para apertar a mão da filha do homem mais corajoso que alguma vez conheceu. O coronel que começou por desconfiar daqueles perfuradores regressa à Terra sabendo que deve a vida a um deles.
A.J. e Grace acabam por casar, acompanhados pelos sobreviventes e pelas fotografias dos que ficaram para trás. Harry não pode levá-la ao altar, mas está presente. E os Aerosmith tratam do resto.
Armageddon é exagerado, barulhento, absurdo e não tem qualquer vergonha de ser sentimental. Talvez seja precisamente por isso que continua a funcionar tão bem comigo. Faz-me rir, mantém-me preso à ação e, quando chega o momento certo, acerta sempre onde dói.
Já o vi um número impossível de vezes. Quase o sei de cor.
E voltarei a vê-lo.
