Há livros que se leem e arrumam-se na estante, obedientes, fechados, como se tivessem cumprido o seu papel. E há outros que não aceitam esse destino. Ficam. Não necessariamente inteiros, não com todas as personagens à mão, não com todos os capítulos alinhados na memória, mas ficam como ficam certas imagens antigas: uma sombra no fundo de uma sala, uma porta que range, uma viagem que nunca terminou. Rapto em Lisboa, de Paul D. Cohn, pertence a esse segundo grupo.
Não sei se o livro me agarrou pela história, pela época, pela violência do que conta ou pela forma como me empurrou para dentro de um mundo que parecia distante, mas que depressa deixou de o ser. Sei apenas que, a certa altura, já não estava a ler de fora. Estava dentro daquela caravela, ao lado de Saulo, sentindo o ar tornar-se pequeno, pesado, quase impossível. Estava na humidade sufocante de São Tomé, no medo, na febre, na injustiça tornada rotina. Estava também no silêncio deixado por Leah, nesse outro tipo de prisão que não precisa de correntes para ser cruel.
Há romances históricos que nos mostram o passado como quem abre uma vitrina. Tudo está lá, bem composto, com nomes, datas, trajes e cenários. Este não me pareceu assim. Aqui o passado não está protegido por vidro. Vem sujo, quente, violento, cheio de corpo. A ambiência não é apenas decoração, é uma presença. A caravela não é só um meio de transporte. São Tomé não é só um destino. O convento não é só um lugar. Tudo pesa. Tudo aperta. Tudo parece ter sido construído para nos lembrar que a História, quando desce dos manuais e entra na vida das pessoas, deixa de ser uma sequência de acontecimentos e passa a ser ferida.
A imagem que mais me ficou foi a de Saulo preso na caravela. Não como uma simples cena de aventura ou sofrimento, mas como uma espécie de símbolo brutal: alguém arrancado da sua casa, da sua fé, da sua família, do seu nome possível, e atirado para um destino que não escolheu. Há ali uma claustrofobia que vai para lá do espaço físico. O horror não está apenas na escuridão, no cheiro, no medo ou na falta de ar. Está nessa ideia mais funda de o mundo deixar de nos pertencer. De repente, a vida de uma pessoa é decidida por outros, transportada por outros, vendida por outros, como se a alma fosse uma carga.
Quando a narrativa chega a São Tomé, percebe-se que a viagem não era o pior, era apenas o princípio. A ilha surge como um lugar de beleza ferida, onde a natureza parece respirar com uma força imensa, mas onde os homens criaram um sistema de castigo, doença, exploração e morte. Há febres, há violência, há injustiças que se repetem até quase parecerem normais, e talvez seja isso o mais perturbador. O livro não precisa de gritar para mostrar a crueldade. Mostra-a no modo como ela se instala, como passa a fazer parte dos dias, como as pessoas aprendem a sobreviver dentro dela.
E, no meio disso, Saulo não desaparece. Podia desaparecer. Podia tornar-se apenas mais um corpo vencido pelo medo, pela distância, pelo abandono. Mas há nele uma resistência que não nasce como heroísmo fácil. Nasce aos poucos, como nascem as coisas que têm de sobreviver primeiro antes de poderem levantar a cabeça. É isso que dá força ao livro: não é a ideia limpa de um herói, é a caminhada dura de alguém que foi quebrado por fora, mas que continua a guardar alguma coisa por dentro.
Leah, por outro lado, vive uma prisão diferente. Mais silenciosa, talvez menos visível, mas não menos cruel. A dela é uma espera atravessada por perda, imposição e solidão. Enquanto Saulo é arrastado pelo mar e pela ilha, Leah fica presa noutro tipo de destino, daqueles que não fazem tanto barulho mas corroem da mesma maneira. E quando os dois voltam a cruzar-se, não é apenas um reencontro. É o encontro de duas pessoas que já não são exatamente as mesmas, porque o tempo passou por elas com mãos pesadas.
Talvez tenha sido isso que mais me tocou em Rapto em Lisboa: a forma como o livro não trata o passado como uma coisa morta. Aquilo que ali se conta pertence a outro século, mas a dor que atravessa aquelas páginas não parece antiga. O medo de ser arrancado, o peso da intolerância, a violência feita em nome de interesses maiores, a crueldade disfarçada de ordem, tudo isso continua a bater demasiado perto. Mudam os navios, mudam os mapas, mudam os nomes dos poderes, mas há feridas humanas que parecem atravessar os séculos sem pedir licença.
Por isso não penso neste livro apenas como uma leitura. Penso nele como uma experiência. Daquelas que não se fecham quando se fecha a última página. Fica uma espécie de eco, uma pergunta, talvez até um incómodo. E os bons livros fazem isso. Não nos deixam sair iguais. Puxam-nos pelo colarinho, obrigam-nos a olhar, e depois largam-nos no presente com a sensação estranha de que aquilo que aconteceu há muito tempo ainda está, de alguma forma, a acontecer dentro de nós.
