Queen: as pessoas que ficam dentro das músicas

Há bandas que não ouvimos sozinhos. Queen é uma delas. Mesmo quando o som vem alto, há sempre uma memória a cantar por baixo.

Há músicas que não voltam sozinhas. Trazem sempre alguém pela mão, mesmo quando essa mão já não está na nossa. Às vezes basta uma voz, um refrão, uma guitarra a entrar no sítio certo, e de repente já não estamos apenas a ouvir uma canção. Estamos noutro tempo. Noutro lugar. Noutra versão de nós.

Queen tem esse poder estranho. Não é uma banda que passe discreta pela sala. Entra como quem abre uma cortina pesada, acende tudo e obriga o mundo a olhar. Há ali teatro, excesso, delicadeza, músculo, tristeza e festa. Há Freddie Mercury ao centro, claro, com aquela forma impossível de transformar um estádio numa sala íntima e uma sala íntima num estádio. Mas também há qualquer coisa maior do que a própria banda. Queen não ficou só nos discos. Ficou nas pessoas.

Talvez por isso eu não consiga ouvir Queen como se fosse apenas música. Há bandas que pertencem à história da música. Outras pertencem também à nossa história, mesmo quando não queremos fazer grande discurso sobre isso. Ficam ligadas a fases, a conversas, a nomes que não dizemos em voz alta, a dias que passaram e ainda assim continuam a acender uma luz quando uma canção começa.

No dia 9 de Julho de 1986, os Queen estavam em plena Magic Tour, a caminho daqueles concertos de Wembley que acabariam por se tornar quase mitologia. Quarenta anos depois, é fácil olhar para esse verão com uma espécie de arrepio. Freddie ainda estava ali, inteiro no palco, dono do microfone, a comandar multidões com uma naturalidade que parecia simples só porque ele a fazia parecer simples. Hoje sabemos que aquela seria a última grande digressão dos Queen com ele. Na altura, era só mais uma noite enorme. A vida tem muito disto: só mais tarde percebemos quais eram os momentos que estavam a despedir-se.

E talvez seja por isso que Queen continua a doer um bocadinho, mesmo quando a música parece feita para levantar os braços. “Somebody to Love” procura uma coisa que nunca chega completamente. “Love of My Life” parece sempre cantada para alguém que já está longe. “Who Wants to Live Forever” carrega uma pergunta demasiado grande para caber numa canção. Até “Radio Ga Ga”, com aquele coro imenso de mãos no ar, tem qualquer coisa de despedida escondida no brilho.

Há músicas que nos animam. Há músicas que nos arrumam por dentro. E depois há aquelas que fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Queen vive nesse lugar raro. Consegue ser festa sem deixar de ser ferida. Consegue ser grandioso sem perder a fragilidade. Consegue fazer-nos cantar alto uma frase que, se fosse dita em silêncio, talvez nos partisse um pouco.

Não sei se isto acontece com toda a gente da mesma maneira. Talvez não. Há músicas que chegam limpas a uns e chegam carregadas a outros. Para mim, Queen traz sempre uma memória por baixo do som. Não uma memória para explicar toda, nem para transformar em recado. Apenas aquela sensação de que certas canções guardam pessoas dentro delas. E quando voltamos a ouvi-las, essas pessoas não regressam, mas passam perto.

É por isso que este post não é só sobre Queen. É sobre a forma como uma banda pode ficar presa a alguém, a uma fase, a uma ausência, a uma espécie de fotografia sem moldura. É sobre perceber que a música não apaga nada, mas também não deixa tudo morrer. Às vezes é só isto que uma canção faz: conserva uma luz pequena num canto escuro da memória.

Quarenta anos depois daquele Julho de 1986, Freddie continua a levantar o braço. Brian May continua a fazer a guitarra parecer uma constelação eléctrica. Roger Taylor continua a empurrar o coração da música para a frente. John Deacon continua ali, discreto, firme, como se segurasse a casa toda sem precisar de dizer muito. E nós continuamos deste lado, a ouvir.

Queen ficou. Como ficam certas pessoas. Como ficam certas noites. Como ficam certas músicas que já não pertencem apenas a quem as escreveu, mas a todos os que um dia precisaram delas para lembrar, para aguentar, ou simplesmente para cantar mais alto do que aquilo que doía.

3