Viseu, numa viagem sem fotografias

Entre os monumentos de Viseu, a Feira de São Mateus e as termas de São Pedro do Sul, ficou uma viagem guardada apenas na memória.

Há viagens de que regressamos com centenas de fotografias. Outras pertencem a um tempo anterior, quando o telemóvel ainda não servia de máquina fotográfica e eu nem sequer tinha uma para levar comigo. A viagem que fiz ao Norte, com passagem por Viseu e pelas Termas de São Pedro do Sul, pertence a esse tempo.

Não consigo reconstruir hoje todo o percurso nem a ordem exata em que visitei cada lugar. Não há uma pasta no computador que me ajude, nem fotografias onde possa procurar um pormenor esquecido. Ficaram apenas alguns fragmentos: os monumentos, as ruas da cidade, uma feira que parecia prolongar-se durante semanas e, mais tarde, as pedras antigas junto às águas termais.

Viseu não era o único destino da viagem, mas aproveitei a passagem para conhecer a cidade. Como habitualmente fazia, fui ver os seus monumentos e caminhar pelo centro histórico. Era essa a minha maneira de descobrir um lugar, mesmo antes de a fotografia se tornar uma parte importante das minhas viagens: andar, observar e procurar aquilo que contava a história da cidade.

Hoje já não consigo dizer diante de qual dos monumentos permaneci durante mais tempo. A memória guardou sobretudo o conjunto: a pedra, as igrejas, as praças e aquela sensação de estar numa cidade que não precisava de transformar o seu passado num cenário. A história estava integrada nas ruas e na vida que continuava à volta dela.

Recordo-me também de uma grande feira anual. Pelo tempo que durava e pela presença que tinha na cidade, só poderia ser a Feira de São Mateus. Não era uma festa de dois ou três dias. Prolongava-se por cerca de um mês e parecia criar uma segunda cidade dentro de Viseu, feita de luzes, música, diversões, comida e gente.

Não me ficaram os nomes dos artistas, os cartazes ou um acontecimento específico. Ficou-me a dimensão da feira e a ideia de uma celebração que não desaparecia ao fim de um fim de semana. Durante várias semanas, fazia parte da própria rotina da cidade. Talvez seja por isso que ainda hoje me lembro dela, apesar de tantos outros pormenores da viagem se terem perdido.

Da cidade segui também até às Termas de São Pedro do Sul. Não apenas à zona moderna dos tratamentos termais, mas ao lugar histórico junto ao rio Vouga, onde permanecem os vestígios dos antigos balneários. É um daqueles sítios em que a passagem do tempo se percebe sem ser necessário imaginar demasiado. As pedras estão ali e a água continua a correr perto delas.

Há algo de particular num lugar usado durante tantos séculos pela mesma razão. Mudaram os edifícios, os conhecimentos médicos e as pessoas que por ali passaram, mas a água termal permaneceu. Os vestígios do antigo balneário romano mostram que aquela procura começou há cerca de dois mil anos. Gerações muito diferentes chegaram ao mesmo local à procura de alívio, descanso ou cura.

Provavelmente, se fizesse hoje essa viagem, regressaria com dezenas de fotografias. Fotografaria as fachadas de Viseu, os pormenores das igrejas, o movimento da feira, as pedras das termas e o rio a passar ao lado. Procuraria ângulos, esperaria pela luz certa e tentaria conservar aquilo que os olhos estavam a ver.

Naquela altura, porém, ainda não tinha máquina fotográfica. A viagem teve de ficar guardada de outra maneira.

É verdade que uma fotografia talvez me ajudasse agora a recordar mais. Poderia mostrar-me um monumento que já esqueci ou confirmar se determinado lugar era exatamente como o imagino. Mas também me obrigaria a olhar para a viagem através daquilo que decidi enquadrar naquele momento. Sem fotografias, sobraram apenas as imagens que a memória escolheu conservar.

Viseu ficou como uma cidade de monumentos e de uma feira que parecia durar um mês inteiro. São Pedro do Sul ficou ligado às pedras antigas, à água termal e ao rio. Não é um arquivo completo e talvez algumas recordações já se tenham misturado com o passar dos anos. Ainda assim, é o que resta daquela viagem.

Antes de começar a fotografar os caminhos por onde passava, já procurava guardar os lugares. Simplesmente ainda não sabia que, mais tarde, uma máquina fotográfica se tornaria uma das formas de prolongar essas viagens.

Viseu pertence ao tempo anterior a tudo isso. Não tenho fotografias para mostrar, mas a viagem aconteceu. E, tantos anos depois, ainda encontro o caminho de regresso através dos fragmentos que ficaram.

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