Há estradas onde acabamos por conhecer cada curva. Noutras, conhecemos também cada buraco. Sabemos onde levantar o pé, quando fugir para a direita e em que zona uma sombra pode esconder mais uma depressão no pavimento. A EN120-1, na ligação entre Sines e Porto Covo, tornou-se uma dessas estradas. Já não se conduz apenas olhando em frente. Conduz-se à procura do próximo pedaço de alcatrão que ainda esteja inteiro.
Em fevereiro, depois das tempestades que atingiram a região, a Câmara Municipal de Sines pediu formalmente uma intervenção urgente à Infraestruturas de Portugal. A autarquia descreveu uma estrada com múltiplas depressões, água acumulada e condições capazes de colocar em risco a circulação. Nessa altura, o colapso do Caminho Municipal 1109, na zona de Morgavel, obrigou ainda mais trânsito a passar pela EN120-1. O pedido pode ser lido na página do Município de Sines.
Entretanto, a CM1109 foi reconstruída e reabriu no início de julho. Foi uma boa notícia, mas o episódio deixou um aviso difícil de ignorar. Se a EN120-1 ficar interrompida, Porto Covo não perde apenas uma estrada. O trânsito é empurrado para vias municipais estreitas, frágeis e sem condições para receber pesados, autocarros, autocaravanas e todo o movimento do verão. O que começa como um problema numa estrada nacional acaba por se espalhar por toda a rede local.
Nos últimos tempos já vi equipas a taparem os buracos com aquilo que, aos olhos de quem passa, parece cola e gravilha. Esse tipo de tratamento pode ter utilidade quando o pavimento ainda está estruturalmente saudável e apenas precisa de ser selado. Não resolve uma estrada com buracos profundos, abatimentos e infiltrações. Esconde a ferida, mas não trata o que está por baixo.
Com a chuva e o trânsito pesado, a gravilha começa a soltar-se e o buraco regressa. Por vezes regressa maior, porque a água continuou a entrar e a destruir a base da estrada. Pelo caminho ficam pedras projetadas contra os carros, para-brisas marcados e um perigo adicional para quem circula de mota. É uma intervenção rápida, barata e muito visível. Também é uma forma eficaz de tapar os olhos sem reparar verdadeiramente a estrada.
A EN120-1 precisa de uma repavimentação séria. É necessário retirar o pavimento degradado, reconstruir as zonas onde a base cedeu, corrigir a drenagem, limpar valetas e passagens hidráulicas e aplicar uma camada contínua de novo asfalto. Tapar cada buraco separadamente já não chega, porque o problema deixou de estar apenas à superfície.
Também faria sentido estudar a criação de vias para veículos lentos em alguns pontos estratégicos, sobretudo nas subidas e nos troços onde o terreno e a largura o permitam. Não é preciso transformar a EN120-1 numa autoestrada. Bastavam duas ou três zonas onde os pesados, tratores ou autocaravanas pudessem ser ultrapassados em segurança. Hoje, basta um veículo mais lento para se formar uma longa fila e começarem as ultrapassagens feitas à pressa.
O período entre o fim do verão e a chegada das chuvas prolongadas deveria servir precisamente para este trabalho. Ninguém sabe quantas tempestades trará o próximo inverno, mas não é preciso uma tempestade histórica para agravar uma estrada que já está ferida. Basta água a entrar pelas fendas, noite após noite, até o pavimento voltar a ceder.
Não podemos mandar na chuva. Podemos limpar a drenagem, reparar a base e impedir que a água encontre sempre o mesmo caminho. Podemos minimizar riscos antes de eles se transformarem em acidentes, cortes de estrada e obras de emergência muito mais caras.
A EN120-1 não precisa de mais uma camada de desculpas. Precisa de uma camada de alcatrão feita como deve ser. Porque tapar buracos pode melhorar uma fotografia, mas só reparar a estrada protege quem passa por ela todos os dias.
