Não faço ideia de quando vi Braveheart pela primeira vez. Sei que passou na televisão, que o tive gravado numa cassete VHS e que, mais tarde, comprei o DVD original. Foi mudando de formato, mas nunca saiu verdadeiramente da minha vida. Vi-o vezes sem conta e, mesmo sabendo de cor para onde a história caminha, continuo a acompanhá-la como se ainda houvesse alguma esperança de mudar o destino de William Wallace.
Lançado em 1995, realizado e protagonizado por Mel Gibson, Braveheart leva-nos até à Escócia dominada por Eduardo I de Inglaterra, o rei a quem chamavam Longshanks e que, por cá, podemos tratar simplesmente por Pernas Longas. É um filme com quase três horas, feito de batalhas, amor, traições, ambição, vingança e uma ideia de liberdade maior do que qualquer um dos homens que a procura.
Mas antes das espadas e dos exércitos, há uma criança.
O jovem Wallace entra num edifício e encontra vários homens enforcados. É o primeiro contacto brutal com aquilo que o domínio inglês significa. Pouco depois, perde o pai e o irmão, mortos durante a luta contra os ingleses. Ainda não compreende completamente as guerras dos adultos, mas já sabe que elas lhe levaram quase tudo.
Durante o funeral, quando todos parecem fechados dentro da própria dor, a pequena Murron aproxima-se e oferece-lhe uma flor. Não precisa de dizer nada. Aquele gesto simples fica guardado por Wallace durante anos e também fica connosco, porque a mesma menina regressará mais tarde à vida dele. Antes de ser uma história de guerra, Braveheart começa com um rapaz sozinho e uma flor dada em silêncio.
É então que chega o tio Argyle. Wallace espera talvez encontrar alguém que lhe ensine a lutar, mas o tio começa por lhe dar uma pancadinha na testa. Primeiro terá de aprender a usar a cabeça. A espada virá depois. Quando descobre que o rapaz não sabe ler nem escrever, não dramatiza. É apenas mais uma coisa que se pode resolver.
Essa pequena cena explica muito do homem que regressará anos mais tarde. Wallace não volta apenas mais alto, mais forte e preparado para empunhar uma espada. Regressa viajado, instruído e capaz de falar outras línguas. Argyle ensinou-lhe que uma guerra não se vence apenas com força. A espada pode derrubar um adversário, mas é a cabeça que escolhe quando, onde e porquê lutar.
Quando regressa à sua terra, Wallace não procura uma revolução. Quer cultivar o seu pedaço de chão, reencontrar Murron, formar uma família e viver em paz. Depois de tudo o que viu em criança, não regressa com vontade de entrar numa guerra. Regressa com vontade de ter uma vida.
É precisamente isso que o domínio inglês não lhe permite.
Wallace e Murron casam-se em segredo para fugirem ao suposto direito de prima nocte, imposto no filme pelos nobres ingleses. O casamento dura pouco. Depois de Wallace impedir que um soldado a ataque, Murron é capturada e assassinada pelo magistrado, que lhe corta a garganta diante da aldeia como castigo por um casamento considerado ilegal.
A morte de Murron muda tudo.
Wallace deixa de ter a vida tranquila que procurava. A revolta nasce de uma ferida pessoal, mas depressa cresce para lá da vingança. Ele regressa à aldeia, enfrenta os homens do magistrado e mata aquele que lhe tirou Murron. A partir desse momento, já não há caminho de volta.
A flor que guardou desde a infância passa a representar tudo o que lhe foi roubado. Murron não desaparece realmente do filme. Continua nos sonhos, nas visões e nos silêncios de Wallace. Está presente sempre que ele precisa de recordar por que começou a lutar e por que já não pode parar.
À sua volta juntam-se homens que não parecem feitos para obedecer a ninguém. Hamish é uma pedra, quase literalmente. Grande, forte, teimoso e sempre pronto a resolver as coisas pela força, começa por atirar uma pedra a Wallace e acaba a acompanhá-lo até ao fim. Ao lado dele está o pai, Campbell, tão disposto a lutar como os mais novos.
Depois aparece Stephen, o irlandês completamente doido que afirma falar com Deus e garante que a Irlanda é dele. Nunca sabemos exatamente onde termina a loucura e começa a inteligência, mas ele traz humor ao meio da violência sem deixar de ser um guerreiro temível. Parece estar sempre meio passo ao lado de toda a gente e, talvez por isso, consegue ver perigos que os outros ainda não perceberam.
As batalhas são enormes, sujas e violentas. Não têm a elegância limpa de homens a cruzarem espadas num salão. Há lama, cavalos, sangue, medo e corpos a chocarem uns contra os outros. Mesmo depois de tantos anos e de tantos filmes posteriores terem aumentado a escala, continuam a sentir-se verdadeiramente épicas.
A preparação para o combate é tão importante como o próprio confronto. Wallace sabe que não tem os números, as armas ou o treino do exército inglês. Tem de usar o terreno, a inteligência e a vontade dos homens que lutam ao seu lado. A lição de Argyle continua presente. Primeiro a cabeça. Depois a espada.
Na batalha de Stirling, os escoceses estão quase a abandonar o campo quando Wallace lhes fala de liberdade. Eles podem fugir e talvez viver mais alguns anos, mas terão de carregar para sempre a certeza de que deixaram passar a oportunidade de lutar pela própria terra. Wallace não lhes promete que sobreviverão. Promete apenas que aquela escolha dará sentido às suas vidas.
É aí que está o coração de Braveheart. Um homem sem a sua liberdade não existe verdadeiramente. Pode respirar, trabalhar, envelhecer e obedecer, mas há uma parte dele que já morreu. Wallace prefere arriscar a vida a aceitar uma existência decidida por outro homem.
Depois vêm a carga da cavalaria, as lanças erguidas no último instante e o choque entre os dois exércitos. O filme sabe criar tensão mesmo quando já conhecemos o resultado. Wallace transforma agricultores e homens comuns num exército porque lhes dá algo que o dinheiro não consegue comprar. Uma razão para permanecerem no campo quando tudo lhes diz para fugir.
O problema é que a Escócia não está dividida apenas entre escoceses e ingleses. As grandes famílias escocesas lutam pelos seus próprios interesses. A lealdade muda de lado conforme as terras, os títulos e as promessas oferecidas pelo rei de Inglaterra. Cada nobre quer libertar o país, desde que não tenha de perder demasiado para o conseguir.
Wallace percebe que pode vencer batalhas com homens comuns, mas dificilmente poderá vencer a guerra sem unir aqueles que possuem terras e exércitos. E é aí que encontra um inimigo mais difícil do que o Pernas Longas. A ambição, o medo e a facilidade com que uma causa é vendida quando o preço parece compensar.
Robert the Bruce poderia unir a Escócia, mas vive preso à influência do pai. Quer ser o rei de uma Escócia livre, embora hesite sempre que precisa de arriscar aquilo que lhe poderá garantir o trono. Admira Wallace, acredita nele e deseja ter a mesma coragem, mas deixa-se conduzir pelos interesses da família.
A traição na batalha de Falkirk é um dos momentos mais duros do filme. Wallace suporta a retirada dos nobres, o ataque inglês e a derrota. Aquilo que verdadeiramente o quebra é descobrir Robert the Bruce entre os homens que lutaram contra ele. Não é apenas uma derrota militar. É a confirmação de que a Escócia continua a ser vendida por aqueles que afirmam querer governá-la.
Do outro lado está Eduardo I, o Pernas Longas, arrogante até ao último suspiro. Não olha para a Escócia como um país, mas como uma propriedade rebelde que precisa de ser dominada. Manipula os nobres, compra lealdades e usa o próprio filho como mais uma peça no seu jogo.
O príncipe Eduardo é apresentado como frágil, inseguro e incapaz de corresponder à dureza exigida pelo pai. É também uma das partes do filme que envelheceu pior, porque a delicadeza e a homossexualidade da personagem são usadas para acentuar a sua fraqueza. O verdadeiro problema não deveria estar na forma como ele ama, mas no facto de não ter força para enfrentar um pai que o humilha e governa por ele.
A princesa Isabella, nora do Pernas Longas, começa por ser enviada para negociar com Wallace. O rei julga que está a mandar uma jovem fácil de manipular, mas ela percebe rapidamente que aquele homem pintado de azul não corresponde ao bárbaro que lhe descreveram.
Wallace não luta por dinheiro, terras ou títulos. Quando Isabella compreende isso, começa também a ver com outros olhos o reino para onde foi enviada e a família onde ficou presa. A aproximação entre os dois cresce até ao romance e à revelação de que ela ficou grávida de Wallace.
Historicamente, esta parte não se sustenta, mas dentro da lenda contada pelo filme tem um propósito claro. No leito de morte do Pernas Longas, Isabella aproxima-se e diz-lhe que o filho de Wallace crescerá no lugar do seu. O rei que passou a vida a tentar esmagar aquele homem descobre, sem conseguir responder, que o sangue do inimigo chegará ao futuro da coroa.
Antes disso, Wallace leva a guerra até York. Deixa de combater apenas dentro da Escócia e mostra que os ingleses também podem sentir o medo de ver o inimigo entrar nas suas terras. É mais um passo na transformação do homem que queria uma casa, filhos e uma vida sossegada. Murron foi-lhe tirada, e a guerra passou a ocupar todo o espaço que ela deixou.
Braveheart não é uma aula de História e nunca deve ser confundido com uma. A verdadeira Batalha de Stirling Bridge aconteceu em 1297, foi vencida pelas forças lideradas por William Wallace e Andrew Moray e teve uma ponte que o filme decidiu deixar fora do campo. Robert the Bruce também foi moldado para servir o drama, tal como Isabella, Murron, o prima nocte e várias datas e relações.
Mas nunca voltei a Braveheart à procura de um documentário. Regresso pela maneira como transforma a História em lenda, pelas paisagens verdes, pelas batalhas, pelas personagens e pelo caminho de um homem que perde tudo, menos a capacidade de escolher aquilo por que está disposto a morrer.
A música de James Horner merece um lugar próprio. As flautas, as gaitas de foles, as cordas e aquele sopro celta parecem nascer das próprias montanhas. A melodia acompanha o amor de Wallace e Murron com uma delicadeza triste, cresce nas batalhas e regressa nos momentos de perda como uma memória que nunca o abandona.
Bastam os primeiros acordes para voltarem as terras verdes, a névoa, os homens alinhados no campo e aquela vontade de lutar pela liberdade. Em Braveheart, a música não acompanha apenas a Escócia. Dá-lhe uma voz.
No fim, Wallace é traído, capturado e entregue aos ingleses. Tentam obrigá-lo a pedir misericórdia, não para lhe pouparem a vida, mas para provarem que até ele pode ser quebrado. Torturam-lhe o corpo diante da multidão e esperam que a dor lhe retire aquilo que nenhum exército conseguiu vencer.
Wallace usa o último fôlego para gritar por liberdade.
Nesse instante, volta a ver Murron no meio da multidão. Ela sorri-lhe e a flor que atravessou toda a história parece fechar finalmente o círculo. O rapaz que ficou sozinho no funeral do pai encontra novamente a menina que lhe estendeu a mão sem dizer uma palavra.
A sua morte não termina a luta. Robert the Bruce leva os escoceses para o campo de Bannockburn e, quando todos esperam que aceite novamente as regras impostas pelos ingleses, invoca a memória de Wallace. Desta vez, escolhe a liberdade.
Foi por tudo isto que Braveheart passou da televisão para a cassete VHS e da cassete para o DVD original. Foi por isso que o vi vezes sem conta. Já conheço a flor, os discursos, as batalhas, as traições e o destino de cada personagem, mas continuo a acompanhar Wallace até ao fim. E continuo a arrepiar-me quando a música começa a erguer-se sobre as montanhas.
Há histórias cujo desfecho nunca muda. Mesmo assim, regressamos a elas porque alguma coisa continua viva depois de o ecrã ficar escuro.
Em Braveheart, é a liberdade.
