Há livros que não voltam à estante. Ficam em nós, como um cheiro antigo que regressa sem avisar.
“Onze Minutos” foi o primeiro livro que li do Paulo Coelho. Já lá vão uns vinte anos. Lembro-me bem desse tempo em que ler era quase uma descoberta física, como se as palavras tivessem peso nas mãos. Foi também um daqueles livros que se lê com alguma pressa e depois fica a trabalhar devagar por dentro.
A história da Maria, a viagem dela entre o desejo, a sobrevivência e a tentativa de se perceber a si própria, não é só sobre o mundo que ela encontra. É sobre o que acontece quando alguém se tenta manter inteiro num lugar onde tudo puxa em direções diferentes. Há qualquer coisa de cru e ao mesmo tempo muito humano nisso.
Na altura, fiquei mais com perguntas do que com respostas. E talvez seja isso que faz certos livros durarem. Não explicam tudo, deixam espaço. Hoje, olhando para trás, não o leio como uma história sobre sexo ou escolhas difíceis. Leio como uma tentativa de entender o corpo como território, e a solidão como companhia constante.
Curiosamente, não voltei a ele. Mas ele voltou a mim várias vezes. Em pensamentos soltos, em conversas, em fases da vida em que algumas perguntas voltam a fazer sentido.
Há livros assim. Não envelhecem. Apenas ficam em silêncio até serem chamados outra vez.
