Milfontes não é um lugar onde eu volte. É o lugar onde eu estou.
Há quarenta anos que vivo aqui, e isso muda a forma como se olha para tudo. O rio não é cenário. É presença diária, com o seu ritmo próprio, sempre igual e sempre diferente. As ruas não são memória distante. São caminho repetido, cheio de rostos que se tornam parte da paisagem e da vida.
O Mira passa devagar, como se soubesse o nome de cada pessoa que o atravessa. E o mar está ali ao lado, a lembrar que a vila nunca acaba em si mesma. Há sempre mais além da linha da areia.
Milfontes ensinou-me a ver o tempo de outra maneira. Não como algo que passa, mas como algo em que se habita.
As pessoas entram e saem, algumas ficam, outras desaparecem. Mas a vila continua, com a sua luz, o seu silêncio entre dias de verão e a calma que só quem vive aqui conhece por dentro.
Eu não observo Milfontes. Eu faço parte dela.
