Quando penso em Matrix, não penso apenas nos três filmes da trilogia original. Penso num universo que se prolongava para além do cinema, atravessando a animação e os videojogos. Durante algum tempo, parecia existir sempre mais uma porta por abrir e outra parte daquele mundo por descobrir.
O primeiro filme apresentou uma ideia capaz de transformar completamente a realidade. A possibilidade de o mundo conhecido ser apenas uma ilusão controlada por máquinas tinha força suficiente para nos deixar desconfortáveis, mas também despertava uma enorme curiosidade. Depois de Neo descobrir a verdade, já não era possível olhar para aquele universo da mesma maneira.
A ação tornou tudo ainda mais envolvente. Os combates, as perseguições, os movimentos impossíveis e a forma como as personagens alteravam as regras da realidade deram aos filmes uma identidade própria. Não eram apenas cenas colocadas para impressionar. Cada confronto mostrava aquilo que alguém podia fazer depois de perceber que as limitações daquele mundo não eram verdadeiras.
Mais tarde, Animatrix mostrou que aquele universo era muito maior do que a história de Neo. As nove curtas de animação exploravam diferentes lugares, épocas e perspetivas, usando estilos visuais muito distintos. Algumas ajudavam a compreender melhor o passado, enquanto outras mostravam pequenas histórias de pessoas que se cruzavam com a Matrix sem perceberem totalmente aquilo que lhes estava a acontecer.
Achei aquelas animações brutais. Não pareciam um simples conteúdo criado para aproveitar o sucesso dos filmes. Havia liberdade para experimentar, mudar o tipo de desenho e contar histórias que dificilmente teriam encontrado espaço na trilogia. Cada curta acrescentava mais alguma coisa àquele mundo.
Também passei por Enter the Matrix. Gostei de jogar e de poder entrar naquele universo através do comando. Já não estava apenas a acompanhar as personagens ou a assistir aos combates. Durante algumas horas, podia fazer parte daquela realidade, enfrentar inimigos e experimentar os movimentos que tinham tornado os filmes tão marcantes.
O jogo tinha, no entanto, um pormenor que ainda hoje recordo com alguma vontade de rir: as rodas dos carros pareciam quadradas. Num universo onde as personagens desafiavam a gravidade, paravam balas e alteravam as regras da realidade, eram aquelas rodas pouco redondas que acabavam por chamar a atenção. Era uma limitação gráfica involuntariamente hilariante, mas nem isso me impediu de gostar de jogar.
Matrix Reloaded aumentou a escala da história. Conhecemos melhor Zion, percebemos a dimensão da ameaça das máquinas e assistimos a sequências de ação ainda mais ambiciosas. A perseguição na autoestrada continua a representar bem essa vontade de ultrapassar os limites do primeiro filme.
Em Matrix Revolutions, tudo se encaminha para o confronto final. A guerra chega a Zion e Neo aproxima-se do destino que começou a ser traçado no início. Gosto da forma como o terceiro filme não tenta regressar ao ponto de partida. O mundo mudou, as personagens mudaram e as consequências das suas escolhas já não podiam ser evitadas.
Adoro os três filmes porque cada um ocupa um lugar diferente dentro da mesma viagem. O primeiro apresenta uma realidade escondida, o segundo expande-a e o terceiro encerra o conflito. Animatrix e Enter the Matrix ajudaram a preencher os espaços entre eles, fazendo daquele universo algo que parecia continuar a existir mesmo quando o ecrã ficava escuro.
Talvez por isso tenha sentido tanta desilusão com Matrix Resurrections. O quarto filme recuperou personagens e regressou a um universo que significava muito para mim, mas não conseguiu recuperar a mesma sensação de descoberta. Reconhecia os nomes, as imagens e as referências, mas já não sentia que estava verdadeiramente a entrar naquele mundo.
A trilogia, as animações e o jogo avançavam sempre para território desconhecido. O quarto filme fez-me sentir que estava constantemente a olhar para trás. Em vez de abrir uma porta nova, recordava-nos as portas que já tínhamos atravessado. E recordar uma emoção não é o mesmo que voltar a senti-la.
Continuo a regressar aos três primeiros filmes com o mesmo entusiasmo. Também guardo Animatrix, o tempo passado em Enter the Matrix e até aquelas inesquecíveis rodas quadradas. Porque, durante algum tempo, Matrix não foi apenas uma trilogia: foi um universo que continuava para lá do ecrã.
