Hoje, 25 de julho de 2026, vi Masters of the Universe no Prime Video. Só esta frase já conta parte da história do filme. Estreou nos cinemas no início de junho e, menos de sete semanas depois, já estava incluído numa plataforma de streaming. Para uma produção pensada como o regresso em grande de He-Man ao cinema, a passagem foi demasiado rápida. Quase parece que chegou às salas já com a porta de saída aberta.
Quando comecei a vê-lo, já sabia que tinha sido um fracasso comercial e já tinha ouvido algumas críticas. Não me sentei diante do ecrã com vontade de confirmar que toda a gente tinha razão. Até esperava encontrar ali uma aventura injustiçada, daquelas que não conseguem público no cinema, mas acabam por ter uma segunda vida em casa.
Não foi isso que aconteceu.
Não tenho uma ligação profunda à mitologia de He-Man. Os desenhos animados passaram em Portugal quando eu era criança e eu via aquilo como qualquer criança via muitos desenhos nessa altura. Interessavam-me as lutas, a transformação de Adam, a Espada do Poder, o Skeletor e os seus planos. Não estava a decorar histórias, relações familiares ou todos os cantos de Eternia.
Apesar disso, havia uma imagem essencial que ficou. Adam podia parecer descontraído, mimado ou pouco interessado, mas não era realmente um medricas. A figura mais medrosa era Cringer, antes de se transformar no Battle Cat. Adam escondia aquilo que era e deixava que os outros formassem uma opinião errada sobre ele. Por baixo da aparência despreocupada já existiam coragem, treino e capacidade para enfrentar o perigo.
O filme decidiu seguir por outro caminho.
Aqui, Adam parece um adolescente preso no corpo de um adulto. É inseguro, desajeitado, assustado e quase sempre incapaz de tomar conta da situação. Em vez de ser um homem que já possui coragem e recebe o poder necessário para defender Eternia, transforma-se num rapaz que precisa da espada para descobrir praticamente tudo aquilo que lhe falta.
Esse foi o primeiro grande problema que senti. O poder não devia criar o herói. Devia apenas dar força a alguém que já possuía a vontade de lutar. Neste filme, parece que He-Man chega para substituir Adam, como se a coragem, a presença e o carisma estivessem guardados dentro da espada juntamente com os músculos.
A história insiste muito na ideia de que o verdadeiro poder sempre esteve dentro dele. É uma mensagem que já vimos em dezenas de filmes de origem. O jovem inseguro não acredita em si próprio, encontra pessoas que o ajudam, descobre o seu destino e percebe finalmente que sempre foi especial. Pode funcionar quando existe uma personagem interessante por baixo da fórmula. Aqui, porém, parece apenas mais uma peça retirada do mesmo molde.
He-Man precisava de entrar no ecrã com peso. Não digo apenas músculos ou efeitos especiais. Precisava daquela presença capaz de fazer acreditar que os outros o seguiriam numa batalha. Em vez disso, o filme mantém Adam demasiado tempo como uma personagem boba e continua a tratá-lo dessa forma mesmo depois de ele começar a aceitar quem é.
Há algumas cenas engraçadas. Também existem momentos em que Eternia, as criaturas e as personagens conhecidas conseguem despertar aquela memória distante dos desenhos animados. Skeletor tem presença, o visual do filme é competente e percebe-se que houve dinheiro colocado diante das câmaras. Não seria justo dizer que tudo falha.
O problema é que nada disso chega para segurar a história.
O humor aparece demasiadas vezes quando o filme precisava de respirar e deixar crescer a aventura. Sempre que uma cena ameaça tornar-se verdadeiramente épica, surge uma piada para lembrar que ninguém deve levar aquilo demasiado a sério. Hollywood habituou-se tanto a pedir desculpa pelas próprias histórias que parece ter medo de apresentar um herói, um vilão e uma batalha sem colocar alguém ao lado a fazer um comentário irónico.
Depois de o ver, fui novamente ouvir e ler algumas críticas. Concordei com a generalidade das falhas apontadas nas análises mais negativas: Adam foi escrito como bobo em vez de inexperiente, o humor corta os momentos mais importantes, a transformação demora demasiado e a personagem não cresce o suficiente para justificar o lugar de He-Man.
Isto não significa que toda a crítica tenha detestado o filme. A receção ficou dividida e o Rotten Tomatoes apresentava 67% entre os críticos e 86% entre o público. Houve quem encontrasse uma aventura leve, divertida e fiel ao espírito exagerado dos desenhos. Eu fiquei do outro lado. Vi algumas ideias interessantes e umas quantas referências, mas não encontrei uma história capaz de lhes dar vida.
A bilheteira também não ficou convencida. O filme arrecadou cerca de 113,7 milhões de dólares em todo o mundo, segundo o Box Office Mojo, para um orçamento apontado entre 170 e 200 milhões, antes de se acrescentar a promoção. A Espada do Poder podia salvar Eternia, mas não conseguiu salvar aquelas contas.
Três dias antes de eu o ver, já estava disponível para os subscritores do Prime Video. É possível que encontre aí o público que não encontrou nas salas. Em casa, incluído numa subscrição que já está paga, torna-se mais fácil aceitar as mais de duas horas de uma aventura mediana. O problema é que um filme com aquele orçamento não foi feito para ser apenas uma escolha aceitável para uma tarde no sofá.
Masters of the Universe também não foi o único filme caro a cair nas bilheteiras. Produções como The Bride, Supergirl, Moana e The Mandalorian and Grogu ficaram abaixo daquilo que os estúdios esperavam, embora isso não queira dizer que tenham todas a mesma qualidade. Algumas podem até encontrar quem goste delas. O problema comum está nos orçamentos enormes e na convicção de que um nome conhecido basta para encher salas.
Hollywood parece continuar a acreditar que o reconhecimento é a mesma coisa que o interesse. Encontra uma personagem dos anos 80, uma sequela, um super-herói ou um título guardado na memória e assume que o público comprará bilhete por nostalgia. Depois acrescenta efeitos, humor, uma história de origem semelhante a tantas outras e deixa uma porta aberta para uma continuação.
Só que uma memória não é um bilhete de cinema.
O público pode reconhecer He-Man sem sentir necessidade de sair de casa para o ver. Pode recordar os desenhos com carinho e, mesmo assim, não querer pagar por mais uma história feita segundo a fórmula do herói inseguro. Até pode gostar de uma personagem e preferir deixá-la intacta na infância, em vez de assistir a uma versão que parece envergonhada daquilo que está a adaptar.
Também não me parece correto dizer simplesmente que as pessoas deixaram de gostar de cinema. Quando aparece um filme que desperta curiosidade, as salas continuam a encher. Project Hail Mary, The Super Mario Galaxy Movie, Toy Story 5 e The Odyssey provaram isso em 2026. O início do ano registou até uma subida das receitas e do número de bilhetes vendidos nos Estados Unidos e no Canadá, embora o mercado continue abaixo dos valores anteriores à pandemia, como mostrou o Los Angeles Times.
Talvez o público não esteja a abandonar o cinema. Talvez esteja apenas mais exigente com os motivos que o fazem sair de casa.
Hoje, um filme disputa atenção com séries, jogos, plataformas de streaming e tudo aquilo que cabe dentro de um telemóvel. Ir ao cinema custa dinheiro, exige tempo e obriga a escolher. Já não basta colocar uma marca conhecida num cartaz e esperar que a sala se encha por hábito.
É aqui que o fracasso de Masters of the Universe deixa de ser apenas um problema de He-Man. O filme pertence a uma tendência de produções caríssimas, construídas por fórmulas e lançadas como se cada uma tivesse de iniciar imediatamente um novo universo. Antes de conquistarem o público, já parecem preocupadas com sequelas, personagens derivadas e muitos anos de exploração comercial.
Falta-lhes, por vezes, uma razão simples para existirem.
Não basta perguntar que propriedade ainda não foi recuperada. É preciso perguntar que história vale a pena contar com ela. Não basta modernizar uma personagem. É preciso perceber o que a tornava reconhecível. E não basta aumentar o orçamento. Há filmes que custam centenas de milhões e parecem mais pequenos do que uma cena bem escrita entre duas pessoas.
Se Hollywood não inverter esta tendência, as bilheteiras ainda vão descambar. Não porque o público tenha deixado de amar histórias, mas porque começou a perceber quando lhe estão a vender a mesma história com outra roupa. Os grandes êxitos continuarão a esconder o problema durante algum tempo, mas as salas não podem viver apenas de dois ou três acontecimentos por ano enquanto o resto desaparece para o streaming poucas semanas depois.
Masters of the Universe não me deixou zangado. Talvez isso fosse melhor. Houve cenas que me fizeram sorrir, reconheci personagens e acompanhei a aventura até ao fim. Depois chegaram os créditos e senti que já tinha visto quase tudo aquilo noutros filmes.
Esse é o verdadeiro desastre. Uma história sobre um homem que descobre possuir o poder foi feita sem força suficiente para ficar na memória.
Hollywood ainda pode erguer a espada e gritar que tem o poder. O perigo é chegar o dia em que já não estará ninguém na sala para responder.
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