Duas horas numa galáxia muito, muito distante

Fui ver O Mandaloriano e Grogu sem esperar que o filme reinventasse Star Wars, e talvez tenha sido por isso que saí satisfeito. Durante duas horas, tive aquilo que fui procurar: uma aventura espacial, planetas estranhos, criaturas improváveis, naves a rasgar o ecrã, o regresso de Din Djarin e aquele pequeno Grogu que continua a carregar meia galáxia nos olhos.

O filme podia ser melhor? Claro que podia. Há personagens que mereciam mais tempo, como Zeb, que aparece quase como alguém que está ali para ajudar e pouco mais, quando podia ter tido uma entrada com outro peso. A personagem de Sigourney Weaver também fica curta. Está presente, diz o que tem a dizer, cumpre a função, mas falta-lhe aquele brilho, aquele pequeno rasgo que transforma uma figura secundária numa presença memorável.

Mas também é verdade que o filme me deu aquilo que prometeu. Gostei da ambiência, do ritmo da aventura e da forma como Din e Grogu continuam a funcionar juntos. Há qualquer coisa naquela dupla que ainda resulta: o guerreiro cansado e a pequena criatura silenciosa, um feito de armadura e dever, o outro de espanto e mistério.

Gostei especialmente de Rotta, agora numa versão musculada e inesperada, quase absurda, mas divertida. Só dispensava que o filme insistisse tantas vezes na ideia de que ele não era igual a Jabba. Nós percebemos. Está à vista. Às vezes, uma boa ideia não precisa de ser explicada várias vezes. Basta aparecer e deixar-nos sorrir.

Também gostei do Aureliano, com aquele diálogo que parecia vir de um filme de gangsters, com sabor a Scorsese perdido no meio das estrelas. Gostei do planeta dos gémeos, do planeta onde Rotta lutava, e até do jogo que nos leva de volta ao velho tabuleiro da Millennium Falcon. São esses detalhes que fazem Star Wars respirar: pequenos ecos, criaturas de canto de ecrã, lugares que parecem existir antes e depois da história que estamos a ver.

E depois houve a nave. O regresso daquela sensação de metal, ferrugem, velocidade e perigo. A luta com as naves foi brutal, daquelas cenas em que o cinema ainda nos lembra porque é que certas histórias nasceram para ser vistas em grande.

Fui com colegas que tinham relações diferentes com a saga. Um ainda não conhecia bem Star Wars e tive de lhe explicar algumas coisas pelo caminho. Outro só tinha visto os filmes. Outro nem é propriamente fã, mas gostou da ideia dos Zenzelianos e do Grogu serem marionetas. E isso diz muito. Porque, no fundo, Star Wars também é isto: explicar nomes estranhos a quem está ao lado, trocar impressões à saída, tentar lembrar quem é quem, baralhar raças, planetas e personagens, sobretudo quando ainda por cima uma pessoa também anda a construir a sua própria saga e já tem nomes suficientes na cabeça para dar nó.

A sala não estava cheia, e isso deu-me alguma pena. Star Wars merece salas cheias, merece aquele silêncio coletivo antes de uma cena grande e aquele murmúrio quando aparece algo conhecido. Mas quem estava lá parecia estar porque queria mesmo estar. E isso também tem valor. Não era uma multidão por moda. Era um pequeno grupo de pessoas disposto a entrar outra vez naquela galáxia.

No fim, foi simples: duas horas bem passadas. Não foi perfeito, não foi enorme, não mudou a história do cinema, mas levou-me de volta a um universo onde ainda gosto de entrar. E, às vezes, isso chega. A galáxia acende-se, a nave arranca, o Grogu olha para nós com aqueles olhos antigos, e por um bocado esquecemos o mundo cá fora.

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