Há artistas que pertencem ao seu tempo. Freddie Mercury pertence a todos os tempos. Se fosse vivo, completaria hoje 80 anos. É estranho escrever esta idade junto do seu nome porque Freddie parece ter ficado preso àquela energia impossível de envelhecer, a correr pelo palco, a desafiar o público e a cantar como se cada noite pudesse ser a última.
Nasceu Farrokh Bulsara, a 5 de setembro de 1946, em Zanzibar. Passou parte da infância na Índia, estudou piano e formou ainda na escola a sua primeira banda, The Hectics. Mais tarde, já em Inglaterra, estudou design gráfico e cruzou-se com Brian May e Roger Taylor. Foi ele quem escolheu o nome Queen para a banda que viria a completar-se com John Deacon. Um nome curto, provocador, majestoso e impossível de ignorar. Tal como ele.
Dizer que Freddie Mercury foi apenas o vocalista dos Queen é dizer muito pouco. Era a voz, o corpo, o teatro, o exagero e a coragem de uma banda que nunca aceitou ficar fechada dentro de um único género. Os Queen podiam começar uma canção no rock, atravessar a ópera, passar pela pop e acabar num coro de estádio. Podiam ser pesados, delicados, grandiosos ou quase íntimos. E tudo parecia natural porque Freddie acreditava plenamente em cada uma dessas personagens.
“Bohemian Rhapsody” talvez seja o melhor exemplo dessa liberdade. Em 1975, quando as canções longas e difíceis de classificar não eram propriamente a escolha mais segura para um single, Freddie escreveu uma obra com quase seis minutos, várias mudanças de estilo e uma secção operática que parecia desafiar todas as regras da rádio. Podia ter sido um disparate monumental. Tornou-se uma das canções mais reconhecidas da história da música.
Mas Freddie não vivia apenas das grandes explosões. Também escreveu “Love of My Life”, uma canção que continua a ser cantada por milhares de pessoas como se cada uma delas estivesse a pensar numa perda diferente. Criou “Somebody to Love”, onde a força do gospel se mistura com a solidão de quem pede apenas alguém que o ame. Em “We Are the Champions”, pegou numa vitória pessoal e transformou-a num hino universal. Há canções que escutamos. Estas parecem saber que estamos presentes.
Foi essa ligação com o público que fez dele um caso único. Freddie não precisava de explicar o que ia fazer. Bastava levantar um braço, aproximar-se do piano ou lançar uma vocalização para uma multidão inteira lhe responder. Não estava simplesmente diante do público. Brincava com ele, provocava-o e conduzia-o. Durante algumas horas, milhares de vozes passavam a ser uma só.
A atuação no Live Aid, a 13 de julho de 1985, continua a mostrar isso melhor do que qualquer descrição. Os Queen tiveram cerca de vinte minutos em Wembley e fizeram deles uma eternidade. Freddie sentou-se ao piano para “Bohemian Rhapsody”, atravessou o palco em “Radio Ga Ga” e colocou o estádio inteiro na palma da mão com um simples “Ay-Oh”. Não havia grandes efeitos especiais a esconder o que estava a acontecer. Havia uma banda, um homem e uma multidão completamente rendida.
Mesmo quando saiu do território habitual dos Queen, continuou a procurar novos caminhos. A parceria com Montserrat Caballé no álbum “Barcelona” juntou rock, pop e ópera muito antes de essas misturas se tornarem comuns. Freddie não tratou a ópera como um adereço. Entrou naquele universo com respeito, curiosidade e uma alegria quase infantil. Ao lado de uma das grandes vozes líricas do século XX, não desapareceu. Encontrou outro espaço para ser ele próprio.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais Freddie Mercury continua tão presente. Nunca pediu autorização para existir como queria. Num mundo que gosta de colocar etiquetas em tudo, mostrou que uma pessoa podia conter muitas versões de si mesma. Podia ser extravagante no palco e reservado fora dele. Podia parecer invencível diante de uma multidão e escrever sobre medo, solidão e necessidade de amor. Não escondeu as contradições. Fez delas arte.
Freddie morreu a 24 de novembro de 1991, com apenas 45 anos. A notícia chegou quando a sida ainda era tratada com ignorância, preconceito e crueldade. Perdeu-se um artista no auge da capacidade criativa, mas a doença não conseguiu apagar aquilo que já tinha sido deixado no mundo. As canções continuaram. Os concertos passaram de geração em geração. E pessoas que nem sequer eram nascidas quando Freddie morreu aprenderam a reconhecer aquele gesto, aquele bigode, aquela coroa e, acima de tudo, aquela voz.
Os Queen estão, para mim, naquele lugar onde já não entram classificações. Há bandas favoritas e depois há nomes que ficam acima de qualquer lista. Queen é um deles. Não é apenas uma questão de gostar das músicas. É reconhecer nelas algo que atravessou décadas sem perder força. Podemos ouvir “The Show Must Go On” centenas de vezes e continuar a sentir o peso daquela voz a avançar quando o corpo já começava a ceder. Podemos voltar a “Who Wants to Live Forever” e perceber que certas perguntas nunca envelhecem.
Hoje, Freddie Mercury faria 80 anos. Provavelmente continuaria irreverente, impaciente e incapaz de passar despercebido. Talvez ainda entrasse num palco com uma capa sobre os ombros e uma coroa na cabeça. Ou talvez se sentasse apenas ao piano, deixando a primeira nota dizer tudo.
Nunca saberemos como teria envelhecido. Sabemos apenas que a sua música não envelheceu com ele.
O palco continua iluminado. O público ainda responde. E, sempre que aquela voz começa a ouvir-se, Freddie Mercury volta a entrar em cena.
