Matrix 5: uma saga não se constrói pelo telhado

Matrix vai regressar. Depois de um quarto filme sem rumo, o quinto terá de respeitar os alicerces antes de construir outro andar.

“Matrix 5?” A pergunta saiu-me quase antes de conseguir perceber o que estava a ouvir. Ainda não tinham passado três semanas desde que escrevi aqui no Caderno sobre Matrix, no dia 6 de agosto, e já estava novamente diante daquele universo. Desta vez, não para recordar o filme que me marcou, mas por causa da confirmação de que a Warner quer voltar a entrar nele.

Estava a ver um vídeo do Linhagem Geek quando surgiu a notícia. Não era um boato criado para alimentar o YouTube, nem um daqueles trailers falsos feitos com imagens antigas e inteligência artificial. Existe mesmo um novo filme em desenvolvimento e, depois do que aconteceu no quarto, a minha primeira reação não foi entusiasmo. Foi desconfiança.

Como já referi no artigo anterior, houve um tempo em que Matrix era o meu filme preferido e aquela era a minha trilogia de eleição. Não vale a pena repetir aqui tudo o que o primeiro filme representou para mim. Basta lembrar que não se limitou a contar uma boa história. Fez-nos olhar para a realidade com outros olhos, misturou filosofia, ficção científica e ação, e criou imagens que o cinema passou anos a imitar.

O famoso efeito das balas ficou na memória, mas não foi isso que fez o filme permanecer. O que ficou foi a dúvida, a escolha de Neo e a ideia inquietante de que o mundo diante dos nossos olhos podia não passar de uma construção. Era um filme com espetáculo, mas também com alguma coisa para dizer.

Os dois filmes seguintes dividiram mais o público, mas deram continuidade àquele universo. Ampliaram a guerra, mostraram Zion, levaram Neo até às consequências da escolha que fizera e fecharam a história. Podíamos discutir algumas decisões, o excesso de explicações ou a forma como certas ideias se perderam no meio do espetáculo, mas existia um caminho. A trilogia tinha um princípio, um desenvolvimento e um fim. A casa estava construída.

Depois chegou Matrix Resurrections. Tenho os quatro filmes, porque o quarto pertence à coleção, mas isso não significa que ocupe o mesmo lugar dos anteriores. Pareceu-me um filme dividido entre regressar à Matrix e explicar por que razão não queria regressar. Recuperou Neo e Trinity, voltou a lugares e imagens que conhecíamos, mas nunca encontrou uma razão suficientemente forte para existir. Em vez de prolongar o legado, passou demasiado tempo a comentar esse mesmo legado.

Agora, a Warner decidiu abrir novamente a porta. Drew Goddard ficará responsável pelo argumento e pela realização, enquanto Lana Wachowski continuará ligada ao projeto como produtora executiva. Ainda não existe data de estreia, história revelada ou elenco confirmado. Nem sequer sabemos se Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss voltarão. Por enquanto, há apenas uma ideia em desenvolvimento e a indicação de que o filme deverá chegar depois de 2027.

A mudança de realizador pode ser uma oportunidade. Alguém novo pode olhar para a Matrix sem ficar preso à necessidade de repetir Neo, Trinity, Morpheus e o mesmo conflito. Aquele universo é suficientemente vasto para contar outras histórias, acompanhar outras pessoas e mostrar outras formas de controlo ou resistência. O novo filme pode avançar sem fingir que o quarto nunca aconteceu, mas também sem carregar às costas tudo aquilo que ele deixou.

Apagar completamente Resurrections seria tentador, mas acabaria por repetir outro erro que conhecemos bem. Um filme feito apenas para contrariar o anterior raramente consegue construir alguma coisa. Passa o tempo a desfazer nós, a corrigir escolhas e a devolver ao público aquilo que julga ter sido perdido. Foi, em parte, o que aconteceu com a última trilogia de Star Wars.

O Episódio VII abriu várias caixas e deixou mistérios por responder. Também jogou pelo seguro, recuperando muitos elementos que já conhecíamos de Uma Nova Esperança. O Episódio VIII decidiu partir grande parte dessas caixas. Tinha conceitos interessantes, talvez os mais ousados daquela trilogia, mas comportou-se menos como o oitavo capítulo de uma saga e mais como uma resposta ao filme anterior e ao próprio passado de Star Wars.

Luke podia estar cansado, derrotado e afastado da Força. Essa ideia tinha força. O problema estava na forma como se chegou até ali. O homem que ainda acreditou na bondade de Darth Vader passou a ser alguém que, por um instante, pensou matar Ben Solo enquanto ele dormia e depois abandonou a galáxia. Uma mudança tão profunda precisava de muito mais chão. Sem esse caminho, não parece evolução. Parece outra personagem a usar o mesmo nome.

O Episódio IX recebeu os pedaços e tentou colá-los à pressa. Foi buscar Palpatine, alterou novamente a origem de Rey, tentou recuperar elementos que o filme anterior tinha afastado e ainda teve de encerrar nove episódios. O resultado foi uma manta de retalhos. Em vez de três filmes a contarem a mesma história, tivemos três filmes a discutirem entre si.

Foram as séries que mantiveram Star Wars vivo durante esse período. The Mandalorian devolveu-nos a aventura e o prazer de descobrir outros cantos da galáxia. Andor mostrou até onde uma escrita mais adulta e cuidada podia levar aquele universo. Ahsoka ligou épocas, personagens e acontecimentos sem tratar o passado como um incómodo. Nem tudo resultou da mesma maneira, mas havia uma vontade de construir a partir do que já existia.

É essa a lição que Matrix 5 precisa de compreender. Respeitar um legado não significa repetir o mesmo filme, recuperar todas as personagens ou encher o ecrã de referências para os fãs reconhecerem. Significa perceber quais são os alicerces daquela história e construir a partir deles. Uma casa pode receber novas divisões, outras janelas e até mais um andar. O que não pode acontecer é chegar um novo arquiteto, arrancar as paredes que sustentam tudo e começar pelo telhado.

O primeiro Matrix tinha ideias, personagens e consequências. Os efeitos especiais estavam ao serviço da história, não eram a própria história. É isso que o quinto filme terá de recuperar. Não precisa de copiar o passado, mas tem de compreender por que razão aquele passado ficou connosco. Também não basta ser melhor do que o quarto, porque essa fasquia está demasiado perto do chão.

Continuo a gostar daquele universo e talvez seja precisamente por isso que olho para este regresso com tanta cautela. Quando uma saga nos marcou, não queremos vê-la presa dentro de um museu, mas também não queremos que seja desmontada para aproveitar o nome na fachada. Queremos sentir que ainda existe alguma coisa para contar.

Matrix 5 pode surpreender-nos. Pode encontrar uma nova história, outras personagens e uma pergunta capaz de nos voltar a inquietar. Mas antes das imagens, das lutas e das balas suspensas no ar, precisa de uma razão para existir. Porque uma saga, tal como uma casa, começa sempre pelos alicerces. Nunca pelo telhado.

1