O público não se cansou do cinema, cansou-se de histórias preguiçosas

Os estúdios culpam o streaming e o cansaço dos super-heróis. Mas as salas enchem quando existe uma história que merece o bilhete.

Hollywood tem uma capacidade extraordinária para encontrar explicações complicadas para problemas bastante simples. Quando um filme de super-heróis falha, fala-se imediatamente em cansaço do género. Quando as salas ficam vazias, culpa-se o streaming. Quando uma sequela não recupera o dinheiro investido, aparecem as mudanças de hábitos, os telemóveis, as séries, as plataformas e a falta de atenção do público.

Tudo isso tem algum peso. Os hábitos mudaram, há mais formas de ver filmes e muita gente habituou-se a esperar alguns meses para assistir em casa. Mas existe outra razão de que os estúdios gostam menos de falar: o público cansou-se de pagar para ver histórias preguiçosas, sequelas sem necessidade e filmes que parecem ter sido feitos por um comité.

Ir ao cinema já não é uma decisão automática. É preciso comprar o bilhete, sair de casa, deslocar-se até à sala e reservar duas ou três horas para um filme que pode acabar por ser apenas mais um produto montado para alimentar uma plataforma, preparar três sequelas e apresentar personagens para outra série. Quando a experiência exige tempo e dinheiro, o público torna-se mais exigente. Não deixou de gostar de cinema. Começou apenas a escolher melhor aquilo que merece ser visto num ecrã grande.

Durante anos, os grandes estúdios acreditaram que bastava colocar um nome conhecido no cartaz. Marvel, DC, Matrix, Mestres do Universo ou qualquer outra marca com algumas décadas de história parecia trazer consigo uma audiência garantida. Em vez de essa confiança servir para contar histórias mais ambiciosas, muitas vezes serviu para reduzir o risco. Repetiram fórmulas, recuperaram personagens, encomendaram universos inteiros e começaram a anunciar continuações antes de perceberem se alguém queria ver o primeiro filme.

O resultado foram obras com muito dinheiro no ecrã, mas pouca coisa por baixo. Há efeitos especiais, destruição, referências para os fãs e cenas preparadas para os trailers. O que falta é uma razão para nos importarmos. Sem personagens bem construídas e sem uma história que saiba para onde vai, todo aquele espetáculo acaba por parecer barulho.

Foi isso que aconteceu em vários momentos recentes. Mestres do Universo chegou carregado de nostalgia e com a responsabilidade de relançar uma saga antiga, mas não conseguiu convencer o público. Supergirl também ficou muito aquém do que seria esperado para uma produção daquele tamanho. Antes disso, As Marvels já tinha mostrado que a presença do logótipo da Marvel não garantia uma sala cheia. Não foi o público que se esqueceu subitamente de gostar de fantasia, aventura ou super-heróis. Foram os estúdios que confundiram reconhecimento com interesse.

Respeitar um legado não significa impedir qualquer mudança. Uma saga que apenas repete aquilo que já fez acaba igualmente por morrer. É possível mudar o elenco, alterar perspetivas, introduzir outras sensibilidades e levar as personagens para lugares inesperados. Mas é preciso compreender primeiro aquilo que se está a herdar. Antes de derrubar uma parede, convém saber se ela está apenas a ocupar espaço ou se é uma das que segura a casa.

Eu próprio olhei com desconfiança para A Odisseia, de Christopher Nolan. Algumas escolhas de elenco e certas liberdades em relação à imagem que tinha da obra e das personagens não me deixaram particularmente entusiasmado. Ainda não vi o filme, por isso não vou fingir que posso avaliá-lo. Posso, no entanto, reconhecer o que está diante de todos: o público apareceu, as críticas foram favoráveis e o filme tornou-se um enorme sucesso.

Ao mesmo tempo, Homem-Aranha: Um Novo Dia voltou a encher salas e ultrapassou a barreira dos mil milhões de dólares. O fenómeno conjunto já foi comparado ao Barbenheimer, com nomes como Spideyssey e Odyssey-Man a circularem pela Internet. Dois filmes muito diferentes conseguiram coexistir, criar entusiasmo e levar multidões ao cinema. Um deles é precisamente um filme de super-heróis, o género que supostamente já teria cansado toda a gente.

Talvez o público não esteja cansado dos super-heróis. Talvez esteja cansado de filmes de super-heróis que parecem iguais, de piadas colocadas nos mesmos momentos, de ameaças que acabam sempre num céu cheio de luzes e de personagens que precisam de sete séries e quatro filmes para serem compreendidas. Quando surge uma história capaz de devolver peso emocional a uma personagem conhecida, a fadiga desaparece com uma rapidez impressionante.

O mesmo acontece fora desse género. As pessoas não estão necessariamente cansadas de sequelas. Estão cansadas de sequelas que existem apenas porque o filme anterior deu lucro. Não estão cansadas de adaptações. Estão cansadas de adaptações feitas por quem parece ter vergonha ou desprezo pela obra que está a adaptar. Não estão cansadas de grandes produções. Estão cansadas de ver centenas de milhões gastos para esconder um guião vazio.

Os estúdios podem continuar a culpar o streaming, os hábitos do público ou uma misteriosa mudança geracional. Podem reduzir janelas de exibição, aumentar campanhas publicitárias e procurar outra marca antiga para ressuscitar. Nada disso substitui uma boa história.

As salas não ficaram vazias porque as pessoas deixaram de gostar de cinema. Ficaram vazias porque o público deixou de confiar cegamente no nome escrito no cartaz. Essa confiança não regressa com mais anúncios, mais universos partilhados ou mais promessas. Reconstrói-se um filme de cada vez.

Quando a história é boa, as personagens têm vida e o filme oferece algo que merece o ecrã grande, as pessoas aparecem. A Odisseia e Homem-Aranha estão agora a demonstrá-lo. O público continua por aí. Só já não aceita pagar por qualquer coisa.

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